Literatura 07/07/2019 23h51 Atualizado às 10h57

Ian McEwan lança o livro 'Máquinas como eu: e gente como vocês'

A cada livro, o autor descortina um novo olhar sobre a existência

Um dom da grande literatura é o de iluminar recantos insuspeitados da alma e do coração das pessoas. Ao verbalizar situações que, de certa forma, a realidade (ainda) não permite vivenciar ou vislumbrar, a arte literária antecipa cenários, que podem ou não vir a se concretizar. Um mestre nesse exercício é o inglês Ian McEwan. A cada livro, descortina novo olhar sobre a existência. E faz isso outra vez no romance Máquinas como eu: e gente como vocês, que acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

A exemplo do que o título já deixa antever, há uma máquina em cena. No caso, um robô. Seria compreensível no mundo contemporâneo, em que a inteligência artificial está presente de forma crescente no mercado. Mas o romance não está ambientado nos dias atuais. O contexto é o da Londres de 1982, uma cidade e um tempo que McEwan conheceu bem. Quase quatro décadas nos separam daquele momento, em que um robô, emblematicamente chamado de Adão, divide sua existência com um casal, Charlie e Miranda. Juntos, precisam ajustar seus papéis de convivência.

A sacada de McEwan, claro, foi deslocar uma inquietação e uma angústia da sociedade atual para um passado já nem tão próximo assim. Por sinal, inquietação e angústia são ferramentas, ou estratégias, que o romancista utiliza para conquistar o leitor. Se agora ele desloca a voz ou o olhar para o contexto da máquina que se “humaniza” (ou seriam os humanos que se despem de sua própria condição, transferindo a tarefa da empatia ao ser inanimado?), no romance anterior havia feito experiência no limiar do existir. Nesse caso, em Enclausurado, o ponto de vista coubera a um feto, ainda na barriga da mãe.

Agora, Adão, como um ente original, ainda não decaído, busca redimir a humanidade, resgatando o afeto, o amor e a estima de um casal. Se ao final desse esforço o Paraíso puder ser preservado, ou reconquistado, essa já é outra história: porque não é papel da máquina resgatar ou preservar a humanidade, nem na ficção, nem na vida real. A epígrafe do romance, emprestada de Kipling, já adverte para essa responsabilidade: “Mas lembre, por favor, que, segundo a lei pela qual vivemos, não fomos feitos para compreender uma mentira...”

Máquinas não compreendem e nem mentem, parece sugerir McEwan, gigante da literatura contemporânea, 71 anos completados em 21 de junho. Mas pessoas, sim. Quem mente sabe que mente. E seria melhor que a sociedade atual não persistisse em acreditar nas mentiras que conta. Não as da ficção, que talvez sejam as que ainda podem redimir a humanidade. E sim as da vida real, das quais não pode haver remissão. Nem das mentiras, nem dos pecados.

Ficha

Foto: DivulgaçãoMáquinas como eu:e gente como vocês, de Ian McEwan. Trad. de Jorio Dauster.São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 327 p. R$ 54,90.
Máquinas como eu: e gente como vocês, de Ian McEwan. Trad. de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 327 p. R$ 54,90.