mix 09/07/2019 22h17 Atualizado às 15h46

O que cantam as baleias?

Novo disco de Adriana Calcanhoto, Margem também é marcado pelas temporadas intensas em que ela passa em Portugal

Adriana Calcanhotto abre seu novo disco, Margem, com a bela faixa-título, de sua autoria, uma canção de amor numa cadência quase carnavalesca. Uma música bem ao sabor da composição de Adriana, que trata de arroubos amorosos, separações e partidas. Em Tua, balada com uma levada meio “djavaniana”, fala da paixão desmedida. “Na areia, na neve marinha / No dentro do dia, tua”, canta, devotamente. Ogunté, também de Adriana, é quase um poema cantado – ou uma música recitada, em tom dramático, crítico. “Crianças encalhadas na Costa de Lesbos / Pacotes de cruzeiros pelas ilhas gregas / O plástico do mundo no peixe da ceia / O que será que cantam as tuas baleias?”

Margem é um disco essencialmente autoral, mas duas canções do repertório são de outros compositores e foram fundamentais para Adriana dedicar-se a um terceiro álbum sobre o mar – e fechar a trilogia. São as faixas O Príncipe das Marés, de Péricles Cavalcanti, e Os Ilhéus, de Antonio Cicero e Zé Miguel Wisnisk. “São duas canções do Maré que não entraram (naquele disco). Isso já me dava uma ideia do que precisava, parecia que eu tinha de trabalhar um pouco mais as canções, mas seriam de uma sequência. Talvez por isso o Margem começou a nascer logo no lançamento do Maré”, lembra a cantora. “Preferi não lançar na época e, de alguma maneira, eu estava certa. Não só em relação ao canto, como acho que elas tinham mais a ver com Margem do que com Maré. As canções é que sabem.”

O Príncipe das Marés faz um jogo com a palavra mar: “A minha terra é o mar”, “o meu céu é o mar”, “o meu castelo é o mar”. “Gosto muito do arquétipo surfista (na letra). E é usada como se pegar onda fosse voar. Nessa situação, meu céu é o mar, e depois como se ele estivesse cavalgando, então, meu cavalo é o mar. São dessas canções simples, mas que você vê que existe muito trabalho até chegar a esse ponto de simplicidade. É uma canção que, desde que eu ouvi, fiquei encantada. Ela ia para o Maré, mas acho que eu não estava pronta”, descreve Adriana.

As temporadas intensas em que ela passa em Portugal estão presentes delicadamente no novo trabalho. Em reflexões, ideias e sonoridades. Na canção Era Pra Ser, essa aproximação é mais evidente, com a melancólica introdução da guitarra portuguesa de Ricardo Parreira. “Não é mais possível a essa altura que eu faça alguma coisa que não contenha Portugal”, diz a cantora e compositora. “O som da guitarra portuguesa é uma coisa que sempre gostei, desde (a canção) Esquadros. Mas ali era uma guitarra portuguesa gravada por um músico brasileiro e agora não. Porque é muito difícil a lógica da guitarra portuguesa. Acho que fica lindo.”

Foto: Divulgação

 

TRIO E TURNÊ

No disco, Adriana vem acompanhada dos músicos Bem Gil e Bruno di Lullo, que estiveram com ela durante a turnê A Mulher do Pau Brasil, que teve início no ano passado. Agora, Rafael Rocha se une à trupe. A sintonia entre o trio Adriana, Bem e Bruno fluiu tão bem que o novo disco foi feito em paralelo àquela turnê. “Eles são muito concentrados. Então, você não precisa trabalhar tantas horas seguidas como costumava ser. Você aproveita muitas horas para fazer aquilo render muito”, comenta a cantora.  

“Acho que a turnê vai ser muito boa, pelo que eu vi com A Mulher do Pau Brasil, com Bem e o Bruno. Acho muito interessante viajar com eles.” A turnê inspirada no disco terá início em agosto, no dia 23, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, passando por Curitiba, Aracaju, Maceió, Fortaleza, Porto Alegre, entre outras cidades. “É outra turnê, um show totalmente novo, que terá canções dos três discos de mar. Estou pensando no repertório, fazendo aquela lista maior, para a gente ficar entre 16 e 18 músicas.”