Originalidade 11/07/2019 22h31 Atualizado às 17h40

Músico de Candelária inova ao tocar rock no bandoneon


Ao incorporar novas sonoridades ao gênero musical, Fábio Pivetta Hörbe dá continuidade a projeto que iniciou na internet em 2017

Com um bandoneon fabricado em 1906 pela empresa alemã Alfred Arnold, o fisioterapeuta Fábio Pivetta Hörbe, de 38 anos, resolveu inovar ao utilizar o instrumento para tocar rock. O canal no YouTube iniciado em abril de 2017, com releituras de Pink Floyd, Guns N’ Roses, Iron Maiden, Queen, Metallica e outros, deu origem a um projeto com Rafael Campos e Edinho Nascimento, intitulado Rockneon. No ano passado, o trio gravou uma música autoral em Venâncio Aires e aguarda a finalização do roteiro para a realização de um clipe.

O canal Rock no Bandoneon conta com 12 vídeos e 107 inscritos. Antes de ir para o YouTube, as gravações caseiras feitas com o celular eram postadas no Facebook. A intenção agora é profissionalizar os materiais audiovisuais, inclusive com a criação do Rockneon. “Sempre tive paixão por música. No começo, tocava músicas de Beatles, Elvis Presley. Depois, passei a fazer aulas de música no Instituto de Belas Artes em Cachoeira do Sul e posteriormente na Unisc. Assim comecei a entender partituras e a evoluir na técnica musical”, explica.

A mistura do bandoneon com o rock surpreende o público. No dia 17, em apresentação na Unisc, Hörbe recebeu comentários positivos. “O pessoal viu o bandoneon e ficou desconfiado. Mas quando começamos a tocar surpreendeu-se com alguns clássicos do rock em um arranjo diferente”, relata. Na Argentina e no Uruguai, a utilização do bandoneon é mais difundida, principalmente no folclore. Hörbe também faz participações em grupos nativistas, como a Orquestra Bagual e o Grupo Poente. Em 2017, no 1º Festival Internacional de Música de Santa Cruz do Sul, esteve no palco na performance do candombe “A Casa Antiga”.


Ensinamentos do mestre

Fábio Hörbe concilia o amor pelo bandoneon com a carreira de fisioterapeuta e o tempo dedicado à esposa e aos dois filhos. Natural de Santa Maria, criado em Cachoeira do Sul e residente de Candelária, esteve durante cinco anos em Santa Cruz do Sul. O bandoneon o acompanha desde os 10 anos, quando o ganhou de aniversário do pai. Antes, já havia feito aulas de gaita ponto e gaita piano. O mentor foi o médico santa-mariense Marion Bastola Schirmer. “Os quatro filhos dele não tiveram interesse pelo instrumento. Ele me adotou como um quinto filho e me ensinou a tocar. Tive uma convivência de 20 anos com ele. Foi um legado deixado antes do AVC, que o impossibilitou de continuar tocando”, detalha.

Pela raridade do modelo Doble A, com 113 anos de fabricação, encontrar restaurador é um desafio. O trabalho mais profundo foi realizado pelo luthier Mauricio Milbratz, de Gaspar, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, inclusive com substituição do fole. Luthier é quem constrói e reforma instrumentos. Recentemente, Fábio descobriu o afinador de acordeons Fernando Pieretti, em Gravataí, que o auxiliou em problemas em algumas teclas. “Tenho muito cuidado, pela afeição que tenho pelo instrumento e pelo que representa para mim”, frisa.

Cada botão produz notas diferentes à medida em que o fole é aberto ou fechado. O bandoneon abrange as cinco oitavas do teclado do órgão, de maneira que toda a música escrita para cravo e grande parte das obras para órgão podem ser interpretadas pelo instrumento. São executadas com o abrir e fechar do fole. O ar passa pelas linguetas correspondentes aos botões que estejam sendo apertados pelos dedos de ambas as mãos.


Primeiro exemplar foi elaborado em 1830, por um alemão

Conforme pesquisa da jornalista e tradutora Adriana Marcolini, o alemão Carl Friedrich Uhlig (1789-1874) concebeu o primeiro bandoneon, por volta de 1830, para substituir o órgão em ofícios religiosos, funerais e procissões. Mais tarde, o professor de música e luthier Heinrich Band (1805-1888), natural de Krefeld, Alemanha, modificou o instrumento original e passou a fabricá-lo para fins comerciais. O nome bandoneon vem do sobrenome Band e de Band-Union, empresa responsável pela comercialização dos primeiros exemplares. Sua época de ouro teve início em 1864, quando Alfred Arnold começou a fabricar os melhores instrumentos.

De lá saíram os célebres “A.A.”, conhecidos na Argentina como “Doble A”. Seu filho, Arno Arnold, fundou em 1950 a Arno Arnold Bandonion Fabrik, na Alemanha. Hoje, o bandoneon é fabricado em pequena escala na Alemanha, na Itália e na Bélgica, mas a produção atual ainda não atingiu a qualidade da antiga, segundo os especialistas. O instrumento chegou à Argentina por volta de 1870, trazido por imigrantes alemães. No começo do século 20, o país já era o principal importador e chegou a adquirir cerca de 60 mil unidades até 1950.