Cultura 11/08/2019 22h42 Atualizado às 13h02

Toni Morrison: uma obra viva do universo cultural

A escritora norte-americana, com Prêmio Nobel em Literatura, acabou morrendo no dia 5 de agosto em Nova Iorque

O universo cultural perdeu na semana passada uma das grandes damas contemporâneas das letras, a norte-americana Toni Morrison (ou Chloe Ardelia Wofford, seu nome de batismo). Prêmio Nobel de Literatura de 1993, maior distinção possível para um escritor, e que recebeu ao lado de inúmeras outras honrarias, ela morreu nessa segunda-feira, 5, aos 88 anos, em Nova Iorque.

Era natural da pequena cidade de Lorain, com pouco mais de 60 mil habitantes, no Estado do Ohio, às margens do lago Erie, na divisa com o Canadá. Mas se Toni se foi, ficou para seus leitores uma obra vigorosa, de profunda identificação com a situação dos negros na sociedade norte-americana, tema inclusive de seu último romance, Deus ajude essa criança, de 2015, lançado no Brasil ao final de 2018 pela Companhia das Letras, editora de boa parte de sua obra no país.

Pela própria conquista do Nobel no início da década de 1990, quando Toni tinha pouco mais de 60 anos, já é possível inferir há quanto tempo ela já era uma autoridade absoluta e uma unanimidade global. Antes disso já havia recebido um Pulitzer de ficção (por uma trilogia), e as homenagens que lhe foram prestadas ao longo dos anos seguintes, dentro e fora dos Estados Unidos, só fizeram crescer seu prestígio e sua autoridade. E isso que abordou temas dos mais latentes e delicados no âmbito da sociedade norte-americana – e, sem dúvida, de alcance mundial.

Entre seus romances, Amada, de 1987, é talvez o mais citado e identificado com a autora. Ganhou nova edição no Brasil pela Companhia das Letras em 2007, além de ter sido incluído por essa editora em sua coleção Prêmio Nobel, em versão de capa dura, em 2011. Baseado em uma história real, Amada inaugura a trilogia premiada, seguido de Jazz e Paraíso. É ambientado em 1873, com enredo situado no contexto da então recém-abolida escravidão: uma mãe e a filha pequena precisam conduzir sua vida tendo de lidar com o fantasma de outra filha, morta cerca de 18 anos antes. Então surge em cena uma menina misteriosa, Amada, que é também a única palavra inscrita na lápide da filha morta.

Se Amada remete para o trauma e para a complexidade da condição dos negros em pleno século 19 nos Estados Unidos, em Deus ajude essa criança, que acabou por ser o seu derradeiro romance publicado em vida, de certo modo tal drama é trazido para os dias atuais. Agora, a protagonista Bride precisa lidar com situação desconfortável: o fato de a sua pele ser negra causou desgosto aos pais desde o momento de seu nascimento. Mel, a mãe de Bride, tem a pele clara, e acaba sendo abandonada pelo marido, que desconfia da fidelidade. E com isso a própria mãe nunca conseguiu estabelecer uma relação de afeto, de carinho e de cumplicidade com a filha. “Ela era tão preta que me assustou”, refere Mel, a certa altura.

A abordagem, a crueza das afirmações e das reflexões e a própria capacidade de, diante de relações sociais marcadas por deslocamento e exclusão, tocar nessa ferida sendo ela uma autora negra fazem de Toni Morrison não apenas porta-voz do povo negro em todo o planeta, mas uma das mais críticas, corajosas e lúcidas vozes a combater a intolerância e o racismo. Toni Morrison pode ter deixado de existir, mas suas ideias e sua obra certamente se tornarão mais vivas a cada nova geração.

Simplesmente estupefato com a beleza dela, Booker ficou olhando de boca aberta uma mulher jovem negro-azulada parada na calçada, rindo. A roupa dela era branca, o cabelo como um milhão de borboletas negras adormecidas em sua cabeça. Conversava com outra mulher – branca como giz e com dreadlocks loiros. Uma limusine estacionou junto à calçada e ambas esperaram o motorista abrir a porta para elas. Mesmo que o deixasse triste ver a limusine ir embora, Booker não parou de sorrir até chegar à entrada dos trens, onde tocava com os dois guitarristas. Nenhum dos dois ainda estava lá, nem Michael nem Chase, e só então ele notou a chuva – suave, constante. (p. 125)

Foto: DivulgaçãoDeus ajude essa criança, de Toni Morrison. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 165 p.R$ 44,90.
Deus ajude essa criança, de Toni Morrison. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 165 p. R$ 44,90.