Filme 12/08/2019 21h25 Atualizado às 11h26

Amigos do Cinema apresenta Táxi Teerã

Obra premiada será exibida na sede do Sindibancários, a partir das 20 horas

Como poderia ter dito Ortega y Gasset, há o filme e sua circunstância. Como se sabe, o diretor iraniano Jafar Panahi foi condenado à prisão pelo regime do seu país. Não pode viajar para o exterior, esteve em prisão domiciliar durante algum tempo, não pode filmar ou escrever roteiros. O regime não gosta dele. Já os outros gostam. Panahi é premiadíssimo. Já ganhou o Leão de Ouro em Veneza (com O Círculo) e, com este Táxi Teerã, que a Associação dos Amigos do Cinema exibe nesta terça-feira,13, a partir das 20 horas, na sede do Sindibancários (Sete de Setembro, 489), descolou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 2015.

O filme é, antes de tudo, um ato de resistência. Aliás, o terceiro ato. Antes, Panahi já havia feito Isto Não É um Filme (2011) e Cortinas Fechadas (2013), testemunhos de sua situação particular, mas também de um estado geral de coisas no Irã. Nesse terceiro longa dessa trilogia do isolamento, Panahi dirige um táxi pelas ruas de Teerã.

Diversos passageiros entram e saem do veículo. Um homem com ideias truculentas a respeito de criminosos discute com uma mulher de pontos de vista liberais. Depois, Panahi socorre alguém que foi atropelado e que, sentindo-se à morte, resolve gravar o testamento no interior mesmo do veículo. Em seguida, é a própria sobrinha de Panahi que entra no carro. Há também um vendedor de DVDs piratas que sustenta fazer um trabalho cultural ao franquear aos iranianos obras que, de outra forma, lhes seriam inacessíveis. Por fim, entra no carro uma advogada que confronta o governo de forma muito contundente.

Do ponto de vista cinematográfico, Táxi Teerã assume opções bem simples. Há o motorista, que é o próprio diretor. As câmeras são instaladas no interior do veículo e captam imagens tanto de Panahi como de seus passageiros. Estes representam diversas amostras da sociedade iraniana: os duros, associados ao regime, os que tentam burlá-lo pelas bordas, os que o confrontam de maneira aberta, o olhar infantil, que tende a ver claro porque é despido de preconceitos.

Falso
Panahi é hábil em explorar as possibilidades dramáticas da situação e dar-lhe ares de falso documentário. Outro iraniano – o grande Abbas Kiarostami – teve a sacada de situar filmes no interior de automóveis. Percebeu que, num mundo em que cada qual parece absorto em si mesmo, o carro havia se transformado num raro espaço de convivência em que as pessoas encontram tempo para conversar. Os carros são herdeiros da carruagem, genialmente usada por John Ford (em No Tempo das Diligências) e retomada por Ettore Scola (em Casanova e a Revolução).

Panahi é observador dessa amostragem que viaja em seu táxi, e que indica uma sociedade ativa e diversificada. Ato de resistência, Táxi Teerã dá provas de esperança. Sugere que, por maiores que sejam os controles do Estado, existem frestas a ocupar e maneiras de driblá-lo. Ilustra uma arte do enfrentamento, a estratégia do fraco a minar a aparente solidez monolítica do forte. (AE)