Música 29/08/2019 23h10 Atualizado às 10h27

Rapper santa-cruzense lança clipe da música 'Peles Pretas'

Músico Jonatan Pach divulga vídeo gravado em Santa Cruz para canção que aborda o racismo

O rap como forma de dar voz a uma crítica contra o racismo. Essa é a proposta do clipe de Peles Pretas, do rapper santa-cruzense Jonathan Pacheco, o Pach, 22 anos, lançado no último final de semana. Recheado de referências e um estimulo à reflexão, o trabalho foi produzido localmente e gravado entre junho e julho na Pousada Paraíso, em Linha Nova. No vídeo, uma família negra é silenciada por mordaças. O rapper é o único que tem voz: o grito que antes não era ouvido.

Além de músico, Pach também é produtor em mídia audiovisual e acabou pensando na ideia do clipe antes mesmo de compor a canção, há um ano. Papito Beats fez o instrumental e o músico escreveu a letra, que acabou ficando engavetada por um tempo. “Eu sempre fui de brincar com as palavras e, naquele momento, estava em uma vibe de vir ideais sobre futebol, jogo, cena do rap, política e genocídio.” A música foi gravada ainda em 2018, com o Tru3Beats, em Vera Cruz.

Para o vídeo, a parceria surgiu com outros estudantes de Produção em Mídia Audiovisual, cursando a disciplina de Projeto Experimental. O trabalho leva a assinatura de Artur Vlacic, Ricardo Pohlmann, Robsom Samuel Moysés e Alceu José. Este último, foi o principal responsável pelo roteiro, baseado na letra. “Não queríamos pôr o povo preto em situação financeira ruim, ou remeter à escravidão. Queríamos uma família preta rica, poderosa, com base histórica mas ainda assim, preta. O racismo estrutural vai muito além do que não é oferecido pra nós, das oportunidades que não são dadas, da falta de incentivo” explicou Pach. O vídeo também explora o uso das cores, com as imagens em preto e branco quebradas pelo destaque do vermelho.


Para Ricardo Pohlmann, que assina direção, produção, fotografia e finalização do projeto, a inspiração veio de This is America, do Childish Gambino, que também faz uma crítica ao racismo e carrega uma série de simbologias. “Foi uma experiência incrível tratar de um tema tão delicado. Ao mesmo tempo, poder falar sobre isso por intermédio do audiovisual só reforça mais ainda o papel da arte e de nós, produtores audiovisuais e artistas, na sociedade atual e no momento político em que nos encontramos. Desde o início a nossa ideia era sermos críticos, e não levianos.”

Impacto
Peles Pretas une musicalidade e imagens poderosas, em que cada cena é carregada de significados e se rende ao subjetivo. Destaque para a atuação da pequena Alícia, que faz o papel da filha mais nova no videoclipe. O resultado é impactante. “Esse primeiro contato do público é necessário, a reflexão, o choque, o soco no estômago, o arrepio. Preto por muitas vezes é tomado como algo negativo, em vários termos, estamos na luta pra mudar essa concepção”, explica Pach. O impacto do vídeo com certeza será duradouro, tanto para o espectador quanto para a ainda jovem carreira do rapper, com apenas quatro anos na música. “Não é fácil falar sobre racismo, ainda mais em uma cidade em que se finge que ele não existe.”

O resto do ano promete ser corrido para Jonatan Pacheco. Em setembro, o rapper lança o EP Solagasta, produzido em Gramado e Canela. Em outubro sai o EP Isaura Bruno, com quatro faixas produzidas pelo Mestre Gu Beats.

Foto: DivullgaçãoClipe foi gravado entre junho e julho
Clipe foi gravado entre junho e julho

Confira um trecho da letra:

Peles Pretas

Peles pretas arrepiadas
Meu cabelo não é piada
Minha cabeça está pilhada
Na tua cara estapeada
A história nos maltrata
Sabe do que se trata?
[...]
Isso não é um dedo na ferida
É tentativa de cicatrizá-las
Cêis acha que a gente não sente?
Quando nas militância gritamos “Mari Presente”
Cêis acha que a gente não sente?
Quando a bala perdida encontra um inocente
Cêis acha que a gente não sente?
Quando descarregam 111 tiro do pente
Cêis acha que a gente não sente?
Que nós todo dia passa por quem quer matar a gente