Cultura para crianças 30/08/2019 19h21 Atualizado às 15h04

Clube da Gurizadinha: um incentivo à leitura infantil junto com a cultura gaúcha

Iniciativa foi idealizada por Iolanda Vitória Rohde Wilhelm, que viu a necessidade de incentivar o filho, ainda criança, a ter contato com a literatura

Era uma vez uma guriazinha que morava numa pequena cidade do interior e adorava ler os gibis da Turma da Mônica. Mal concluía a leitura de uma revista e já aguardava ansiosa o número seguinte. Quando ela cresceu e construiu sua família, quis muito proporcionar ao seu filho, Otávio, hoje com dois anos e nove meses, contato com leitura e com a cultura gaúcha desde cedo, mas a escassez de materiais infantis com a temática tradicionalista era um empecilho.

Assim começa a história do Clube da Gurizadinha, idealizado pela advogada Iolanda Vitória Rohde Wilhelm, 32 anos, de Agudo. Formada em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) em 2014, ela atuou na área jurídica por cerca de cinco anos e hoje se dedica exclusivamente ao Clube, apoiada pelo marido, o empresário Fábio Juliano Dickow.

Criada em um ambiente de leitores, Iolanda valoriza o hábito da leitura em família. Ela é mais adepta de livros e jornais, enquanto o marido prefere revistas. E o pequeno Otávio tem à sua disposição os kits do Clube que foi inspirado na sua chegada.

A missão que a iniciativa se propõe é de “transformar a leitura em um acessório fundamental da indumentária da gurizadinha”. Por essa razão, existe uma preocupação não só em oferecer livros com formato e temática adequados para diferentes níveis de desenvolvimento, mas também explicações sobre as características do povo gaúcho, sua cultura e a natureza da região Sul. Além disso, a personalidade dos integrantes da Gurizadinha foi pensada de maneira que se aproximasse da personalidade dos pequenos leitores, seja em relação às brincadeiras favoritas, aos talentos, aos medos ou às travessuras.

O kit do mês de junho equivalente ao nível dois, por exemplo, era composto pelo livro O segredo debaixo das coisas (Edelbra, 2015), da paulista Janaina Tokitaka, por um guia de leitura específico para este livro, marcadores de páginas com descrição dos personagens do Clube e encarte que ensina a jogar 5 Marias, além das peças do jogo e de um desenho para colorir. No mês de aniversário da criança, acompanham um cartão e um chapéu/cone para comemorar em família.

Vale lembrar que desenvolver o hábito da leitura nas crianças desde cedo depende não apenas de empenho na hora de escolher os materiais adequados, mas também de dar o exemplo e participar das atividades. Independentemente do grau de interação, ler para o bebê, por exemplo, contribui para o seu desenvolvimento mental. Estudos recomendam, inclusive, a leitura ainda no período da gestação, pois o bebê já é sensível aos sons.

Para a criança, mais importante do que a compreensão efetiva da história que está sendo contada é o ritual que se estabelece. Por mais que ainda não decifre as palavras escritas, ela é estimulada a “inventar” sua própria história.

A meta é criar uma rotina de leitura

A psicopedagoga Bruna Arend, 23 anos, de Santa Maria, lembra da importância da adequação dos livros ao nível em que se encontra a criança.Formada em Pedagogia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Bruna é responsável pela seleção das obras que compõem os kits do Clube da Gurizadinha.

“Criar o hábito de leitura com os pequenos é fundamental para o desenvolvimento deles em vários aspectos, pois é por meio da leitura que podemos auxiliá-los para que enriqueçam seu vocabulário, aprimorem sua escrita, apurem seu senso crítico e, principalmente, ampliem seu conhecimento”, destaca. “Por isso, seleciono os livros de acordo com quatro níveis de leitura, para que eles tenham uma experiência significativa e prazerosa.”

Para facilitar a escolha do kit ideal entre os oferecidos pelo Clube, Bruna faz uma associação entre a idade da criança e o possível nível (confira no quadro ao lado), mas reforça que os níveis de leitura dependem da relação que a criança já tem com livros.

“Na verdade, não nos baseamos por idade, porque às vezes há crianças maiores que não tiveram contato com livros ainda, enquanto outros têm esse contato desde bebês”, completa.

Já quando se trata de criar uma rotina de leitura, segundo a psicopedagoga, as crianças podem ser inseridas no universo dos livros desde antes da alfabetização, o que contribuirá para o desenvolvimento de habilidades quando chegarem à idade escolar. Além disso, o hábito da leitura estimula a criatividade e a curiosidade e reforça vínculos afetivos.

Começando a ler

Para apresentar o mundo dos livros aos baixinhos e fazer da leitura um hábito prazeroso, Bruna ressalta que a atividade precisa ser espontânea e gradativa, de acordo com a idade.  Para crianças de até um ano, poucos minutos de leitura por dia são suficientes; de dois a três anos, 15 minutos diários são recomendados; de quatro a cinco anos, 20 minutos;  dos seis anos em diante,  a partir de 30 minutos são essenciais.

Na hora de escolher o livro adequado, algumas características são importantes para que a experiência seja mais proveitosa:
- Até dois anos: livros com imagens, objetos, sons e formas. O manuseio é mais importante do que a leitura.
- De três a cinco anos: livros simples, com textos curtos e de fácil entendimento e ilustrações. A letra bastão é fundamental.
- De seis a sete anos: as histórias podem ser mais longas e a criança já não precisa de tantas ilustrações para compreender o livro.
- A partir de oito anos: o vocabulário da criança já está desenvolvido e ela prefere livros que instiguem sua imaginação, com mais texto.

Entrevista

Magazine: Qual foi a tua relação com a leitura na infância?
Iolanda: Meus pais sempre me incentivaram bastante a ler. Eu tinha assinatura de revistinhas da Turma da Mônica e tinha uma expectativa muito grande em relação ao próximo dia de receber as revistas. Eu ficava ainda mais feliz quando chegava o final do ano e vinha um almanaque com atividades e passatempos, que me motivavam ainda mais a ler e manusear as revistas. Eu lia também livros de literatura e gostava, mas alguns eram muito extensos e isto gerava um pouco de frustração. Naquela época, não tínhamos acesso a uma curadoria profissional para selecionar os livros de acordo com a idade, o que hoje é um cuidado que temos no Clube da Gurizadinha.

Como foi o processo de criação dos personagens do Clube?
Uma agência me auxiliou. Eles fizeram uma longa entrevista comigo sobre as características que eu queria dar ao Clube e uniram a isto um estudo sobre a cultura gaúcha e as características físicas do nosso povo. Ainda, considerando a viabilidade de, futuramente, editar livros com esta turminha do Clube, desenvolvemos personalidades marcantes para os personagens. Um aspecto importante é que buscamos abordar nossa cultura com muito respeito (não caricato) e com uma linguagem que possa ser compreendida do Oiapoque ao Chuí.

O que inspirou o projeto do Clube neste formato, com livro mais gauchices?
Assim como eu gostava das atividades que estavam nos almanaques da Turma da Mônica que eu recebia no final do ano, eu pensei em proporcionar esta experiência aos leitores todos os meses. É uma forma de instigar a curiosidade dos vários tipos de leitor. E também é uma forma lúdica de apresentar o tema gaúcho, já que os livros entregues pelo Clube não são, necessariamente, gaúchos, em função da escassez de livros infantis com esta temática.

Num cenário em que boa parte da população está conectada a eletrônicos desde a infância, o que representa o contato da criança com o livro em formato tradicional  (papel)?
Nosso desejo como pais é de proporcionar às crianças atividades que as tirem um pouco da frente das telas, e o livro é uma ótima alternativa para isso. Inclusive, defendemos, no Clube da Gurizadinha, que queremos unir as famílias numa boa roda de leitura. Mesmo com tanta tecnologia à disposição, percebo que as crianças gostam de sentir o livro em suas mãos. Por isso, penso que os livros físicos, principalmente os infantis, sempre terão espaço.
 

Foto: Arquivo Pessoal Iolanda com o marido, Fábio, e o filho, Otávio
Iolanda com o marido, Fábio, e o filho, Otávio

 

Tradição gaúcha: aprendizado e diversão para os pequenos
*João Cléber Caramez

Incentivar a leitura e ensinar peculiaridades da cultura gaúcha são os principais objetivos do Clube da Gurizadinha, iniciativa criada no dia 19 de setembro de 2018, na véspera da principal data do tradicionalismo. Todos os meses, os associados recebem um kit em casa, conforme a faixa etária das crianças.

O diferencial é o conteúdo extra com “gauchices”: além do livro, são enviados um encarte com os personagens apresentando a cultura gaúcha e curiosidades com um linguajar típico do Rio Grande do Sul, guia para os pais conduzirem a leitura e um brinde surpresa, que pode ser um jogo, um ímã de geladeira, um marcador de páginas, alguma atividade para pintar (veja ao lado) e/ou recortar ou até uma experiência, como plantar uma árvore nativa.

Os kits são divididos em Bê-á-bah (0 a 2 anos), A Tenteada é Livre (3 a 5 anos), Tri Ligeiro (6 a 7 anos) e De Cair os Butiás do Bolso (8 anos ou mais).

Os personagens
GURI – É o mascote da turma, um cusquinho que finge que está com fome só para comer o lanche da Gurizadinha.
GERMANO – É o líder da Gurizadinha e adora tomar mate e passear com o Guri.
CATARINA – Invocada, curiosa e aventureira, adora dançar no CTG e bate suas esporas quando inticam com a Gurizadinha.
CÍCERO – Inspirado no Negrinho do Pastoreio, é especialista em achar coisas perdidas, adora livros e conhece todas as lendas do Sul.

Serviço
O quê: o Clube da Gurizadinha é um clube de leitura por assinatura.
Quanto: R$ 43,90 por mês mais frete.
Onde encontrar: clubedagurizadinha.com.br