Homenagem 25/10/2019 22h36 Atualizado às 15h36

Fã de Massapê cria um memorial para o cantor Belchior

Cidade vizinha a Sobral, terra natal do cantor, há um acervo sobre o ídolo, que morreu em Santa Cruz e completaria 73 anos nesse sábado

O cantor cearense Antônio Carlos Belchior, falecido em Santa Cruz do Sul no dia 30 de abril de 2017, completaria 73 anos nesse sábado, 26. Em Massapê, de 40 mil habitantes e a 20 quilômetros de Sobral, terra natal de Bel, sua memória segue diariamente preservada. Um fã decidiu empregar toda a energia em reunir objetos e lembranças. Quem assumiu a tarefa é o funcionário público Luís Mauro Carneiro, conhecido como Mauro Lira. Hoje com 56 anos, reverencia Belchior e, por telefone, diz à Gazeta do Sul que seu sonho é conhecer Santa Cruz do Sul, último lugar onde o ídolo morou, por mais distante que seja de sua terra (cerca de 4,2 mil quilômetros).

O memorial começou a ser estruturado dias após Mauro ter recebido a notícia da morte de Belchior. “Soube naquele mesmo domingo à noite”, frisa. “Eu estava convalescente. Tinha contraído dengue. À fragilidade pela doença se juntou a dor da perda de Belchior”. Então se determinou a reuniu recortes, fotos e todo material possível em uma sala de casa. Recuperado da doença, e pouco antes da missa de 7º dia do cantor, passou a circular pela região com mensagem colada no vidro traseiro de seu Uno Vivace: “Belchior, Saudades!!!”, dizia, em letra garrafal, o adesivo.

Qual não foi sua surpresa quando, num dia, a frase chamou a atenção do ocupante de outro carro, que passou a segui-lo. Quando parou, do veículo saiu uma mulher de baixa estatura, com óculos escuros. Ela pediu-lhe licença para tirar foto do carro. Embora não tivesse se apresentado, Mauro logo a reconheceu: era ninguém menos do que Edna Assunção de Araújo, a Edna Prometheu, companheira dos últimos anos do cantor e que com ele esteve durante sua temporada em Santa Cruz. “Daí comentei com ela que a frase era apenas um pequeno detalhe da homenagem ao Belchior. E a convidei para que me acompanhasse até minha casa, para conhecer o Memorial. E ela veio!”, frisa.

Emocionada com os materiais que Lira havia reunido, Edna teria admirado tudo em silêncio. Uma foto feita na ocasião é a lembrança dessa visita. Na época, Edna teria estado hospedada na casa de uma amiga, em Massapé, e depois deixou o local. A última notícia é que ela teria viajado para Recife, onde estaria residindo uma de suas irmãs. “Nunca mais soubemos nada dela. Quando esteve aqui, até me pediu para ficar com meu número de celular. Mas nunca fez contato”, comenta Lira, que também estranha o comportamento arredio de Edna.

Foto: DivulgaçãoEm visita recente ao jazigo no qual está sepultado o cantor Antônio Carlos Belchior
Em visita recente ao jazigo no qual está sepultado o cantor Antônio Carlos Belchior
Foto: DivulgaçãoAté a companheira de Belchior, Edna Prometheu, visitou o memorial feito por Mauro
Até a companheira de Belchior, Edna Prometheu, visitou o memorial feito por Mauro
Foto: DivulgaçãoMauro circulou por toda a região próxima a Sobral com um adesivo no seu carro
Mauro circulou por toda a região próxima a Sobral com um adesivo no seu carro


Um abraço do ídolo

Uma de suas lembranças mais fortes associadas a Belchior, conforme Mauro Lira, decorre de fevereiro de 1996. Na ocasião, estava construindo a casa na qual mora e saiu do jeito como se encontrava, sujo de cal, cimento e poeira, para ir até o Hotel Beira Rio, em Sobral. Soube pelo irmão que o cantor, em visita a sua terra natal, estava hospedado ali. E Belchior prontamente o recebeu: ganhou autógrafo e fizeram uma foto, sendo que Belchior nem reparou que ele estava com a roupa toda suja. “Eu estava sujo e ele todo arrumado. Não se importou nada com isso, e me abraçou”, relembra. “Isso foi marcante demais para mim. Uma pessoa muito especial”. Desse dia, guarda o registro que Belchior fez numa folha de caderno pautada. “Numa agenda antiga um dia anotei que, se uma vez ganhasse na Mega Sena, pagaria todas as contas dele e só pediria que, em troca, ele cantasse um pouco perto de mim, aqui em Massapê”, diz.

Foto: Divulgação


Até uma cópia do atestado de óbito

Hoje, Mauro Lira dedica-se de todas as formas a salientar a carreira de Belchior. Seu memorial já mereceu reportagens de diversos jornais. E ele próprio costuma visitar o jazigo de Belchior, no Cemitério Parque da Paz, na capital cearense.  Entre jornais, revistas, álbuns, fotos e outros materiais alusivos ao cantor, Mauro providenciou em Sobral uma cópia da certidão de nascimento de Belchior. Mais: empenhou-se para conseguir, à distância, em Santa Cruz do Sul, cópia do atestado de óbito. “Já está aqui no acervo. Veio pelo Correio. Custou R$ 280,40, caro para um assalariado que nem eu. Mas para mim é como se tivesse sido de graça. Precisava desse papel no memorial”, diz.

Aos 56 anos, Mauro diz que durante muitos anos trabalhou como motorista, realizando serviços para clientes na região. Atualmente trabalha como auxiliar de manutenção na Estação Rodoviária de Massapê. O serviço público municipal, bem como o estadual, garante a subsistência de muitas famílias. E cerca de 2 mil pessoas do pequeno município deslocam-se para trabalhar na Grendene, que possui filial na vizinha Sobral.

Lira lamenta que inclusive em Sobral, terra natal de Belchior, a memória dele seja tão pouco cultuada. Recentemente, um bairro, antes chamado Marrecas e depois das Nações, passou a ser nomeado Bairro Antônio Carlos Belchior. A revitalização da Estação Ferroviária futuramente também deverá resultar num centro cultural em homenagem ao cantor.

“O prefeito de Sobral, Ivo Gomes, irmão de Ciro Gomes e de Cid Gomes, prometeu construir uma estátua enorme, para virar atração internacional, segundo dizia, na praça diante do famoso Theatro São João. Ficou só na promessa”, frisa o fã. Enquanto essas ações não se concretizam, ele segue, com simplicidade e ternura, lembrando do ídolo que morreu, numa madrugada de domingo, no extremo oposto do País, onde vivia praticamente anônimo.

Foto: DivulgaçãoMauro Lira divulga a obra do seu ídolo
Mauro Lira divulga a obra do seu ídolo


Em santa cruz

O cantor e compositor Belchior também motiva programação especial alusiva ao dia de seu aniversário nesse sábado em Santa Cruz do Sul. O professor José Gomes Neto, da Universidade Federal de Santa Catarina, lança o livro Cancioneiro Belchior a partir das 20 horas, no restaurante La Campana, na Rua Borges de Medeiros, 386. No volume, fixa as letras definitivas de 134 canções de autoria do compositor cearense. Haverá venda de exemplares e sessão de autógrafos no local.