Mundo das letras 01/11/2019 19h49 Atualizado às 16h15

Conheça a escritora Lélia Almeida

A autora constrói enredos que salientam as figuras femininas

Em seu mais recente livro, numa estrada sem fim que carrego aqui dentro, a escritora Lélia Almeida de certo modo aponta para a característica nômade de sua história de vida. Nesse volume, ilumina a trajetória de cidadã do mundo, sua biografia como professora, pesquisadora e autora, que registra passagem signficativa por Santa Cruz do Sul.

Em meados de setembro, durante lançamento da obra na cidade, enfatizou à série Mundo de Letras seu empenho em seguir estudando e divulgando mulheres que tiveram e seguem tendo relevância. Na estrada pela qual transita convivem romancistas, poetas, ensaístas e memorialistas das mais variadas épocas. Radicada em Porto Alegre desde 2015, quando retornou ao Sul após temporada de nove anos em Brasília, está fortemente envolvida em eventos culturais e na produção intelectual.

A história de Lélia foi construída, por acasos do destino ou por escolhas que fez, entre dois ou mais mundos, num constante compartilhamento de circunstâncias. Quando nasceu, no dia 20 de fevereiro de 1962, em Santa Maria, não chegou ao mundo sozinha. Veio na companhia de Fernando, seu irmão gêmeo, hoje engenheiro civil.

Seu pai, Nei Almeida, de Sant’Anna do Livramento, e sua mãe, Euterpe Couto, de Cruz Alta, conheceram-se num cursinho pré-vestibular em Porto Alegre. Decidiram casar-se, em 1960, para morar juntos e seguir os estudos em Santa Maria. O pai, que era exímio jogador de basquete e fez história no time do Corinthians santa-mariense, ingressou em Medicina, e a mãe cursou Biologia.

Formados, mudaram-se para a fronteira, fixando-se na terra natal do seu pai, onde este foi atuar profissionalmente, e a mãe passou a lecionar. Lélia e o irmão tinham um ano e cresceram, assim, em realidade de influências múltiplas. Lélia fez o primário na escola Professor Chaves e o 2º Grau na Professor Liberato Salzano Vieira da Cunha. Lembra das idas à biblioteca e da influência que recebia da mãe, grande leitora e que adorava contar histórias para os filhos. Lá nasceram seu irmão Marcelo, em 1964, que segue residindo na cidade natal, e a irmã Laura, em 1971, jornalista, radicada em Brasília.

Lélia diz não ter dúvidas quanto à importância dos universos que se descortinavam em sua formação nas cidades (a brasileira Sant’Anna do Livramento e a uruguaia Rivera) igualmente geminadas. Quando tinha 13 anos, convivia muito com um primo mais velho que a apresentou aos romances do chamado boom da literatura latino-americana, marcado pelo realismo fantástico.

O Brasil vivia a ditadura militar, mas isso pouco afetava a rotina da adolescente Lélia. Ela estudava inglês em escola de Rivera e acompanhava o que ocorria em termos culturais do lado uruguaio (onde o golpe militar ocorreu em 1973). E a família frequentava ambientes sociais. Lembra das idas com os pais ao Clube de Golfe, fundado por ingleses, com o chá das cinco e os jogos de futebol, uma vez que o pai, mesmo vindo de origem humilde, assessorava o sindicato de um grande frigorífico local.

Tendo concluído o 2º Grau, foi morar em Porto Alegre, ingressando no curso de Letras da PUC em 1979, aos 17 anos. Na capital gaúcha, participou do movimento estudantil, junto ao Diretório Acadêmico, e vivenciou a campanha pelas eleições diretas e a anistia aos exilados. “Eu era uma riponga”, diz, sorrindo. Mas recebeu um recado do inesquecível Irmão Mainar Longhi, diretor da Faculdade de Comunicação Social (Famecos): devia se dedicar mais à leitura. Exímio leitor, Irmão Mainar colocou nas mãos dela um exemplar de O inventário das cinzas, de Raquel Jardim. “Foi uma revelação!”, descreve. “Ali decidi: é isso o que eu quero fazer!” E foi o que fez.

O QUE LER

Foto: Divulgação


Livros  publicados por Lélia Almeida

  • Antônia, romance, de 1987, pela Tchê!
  • Senhora Sant’Anna, romance, de 1995, pela Edunisc
  • 50 ml de Cabochard, ensaios, de 1995, pela Edunisc
  • As meninas  más na literatura e autoria feminina, ensaios, de 1996
  • A sombra e a chama, ensaio, em 1996, pela Ed. Ufrgs
  • As mulheres de Bangkok, ensaios, de 1997, pela Edunisc
  • Querido Arthur, romance, em 1999, pela Edunisc
  • Mujer de palabras, crônicas, de 2011
  • O amante alemão, romance, em 2013, pela Edipucrs/IEL
  • Este outro mundo que esquecemos todos os dias, crônicas, de 2014, pela Confraria do Vento
  • numa estrada sem fim que carrego aqui dentro, crônicas e aforismos, de 2019, pela Casa Verde
Foto: Divulgação


Na temporada em Londres, a estreia como escritora
À descoberta de Raquel Jardim e da literatura que, em tempos de reabertura democrática, iluminava o universo feminino, seguiu-se a leitura do romance As parceiras, da santa-cruzense Lya Luft, lançado em 1980. Graduou-se em Letras em 1984 e já no dia seguinte à formatura embarcou para a Europa. O primeiro destino foi Barcelona, onde permaneceu por um ano e meio. Fascinou-se com bibliotecas e museus, com a cidade de Sabadell (onde está a maior escola de tradução da Catalunha) e a obra de escritoras da geração que amadurecera em 1940 e 1950, como Carmem Martín Gaite, Ana María Matute e Carmen Laforet Díaz, ou a britânica Doris Lessing, nascida na Pérsia (hoje Irã).

Foi uma temporada de intensa imersão na literatura. E então Lélia foi para Londres, onde permaneceu por um ano, atraída pelas bibliotecas locais. Sob a influência das leituras feitas em Barcelona, mergulhou na escrita. Ali elaborou Antonia, sua primeira novela, publicada pela Tchê!, de Porto Alegre, em 1987. Em Londres, apaixonara-se por um inglês. Veio ao Brasil para comunicar à família que iria se casar. Quis o destino (sempre ele) que, ao retornar à capital inglesa, ficasse retida na imigração, e logo teve de voltar ao Brasil. A viagem que seria para seu casamento e para fixar-se na Inglaterra significou a interrupção radical dos seus planos.

Vendo-se novamente em Porto Alegre, optou por retomar os estudos. Em 1988 ingressou no mestrado em Literatura Brasileira da Ufrgs. E conheceu o pesquisador Antônio Carlos Mariante, que a conduziu à área de Letras da então Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul (Fisc), hoje Unisc. Com o amplo conhecimento acerca da literatura produzida por mulheres, dentro e fora do Brasil, começou a lecionar na Fisc em 1989, apresentando Carmen Martín Gaite, Isabel Allende e Laura Esquivel, dentre tantas outras, aos seus alunos. Dividia-se em constantes idas e vindas entre Porto Alegre e Santa Cruz. E viveu outra experiência marcante: ficou mãe, com o nascimento do filho Pedro, em 1990, de seu relacionamento com André Luiz Domingues, que conheceu em Porto Alegre.

E, claro, seguiu escrevendo. A experiência da publicação de Antonia levou à elaboração de uma segunda novela, Senhora Sant’Anna, publicada pela Editora da Unisc, em 1995. Em paralelo à produção ficcional investiu cada vez mais nas pesquisas. Junto à universidade, passou a colaborar no mercado editorial, e tornou-se editora na Edunisc, junto à qual coordenou valiosas coleções dedicadas a clássicos da literatura feminina. Já mestre, iniciou o doutorado na Ufrgs e passou dois anos em Mendoza, na Argentina, onde levantou conteúdo sobre 42 autoras da literatura latino-americana. O doutorado acabou não concluindo, mas a expansão de horizontes e os novos conhecimentos sobre as escritoras latino-americanas potencializaram de vez seus estudos na área.

O reconhecimento com o Açorianos e a volta ao Sul
Lélia seguiu vinculada à Unisc até 2003. Na sequência, fixou-se em Porto Alegre, e em 2006 radicou-se em Brasília. Na capital federal, junto ao Ministério da Justiça, coordenou o projeto Mulheres da Paz, com o qual circulou por todo o Brasil, visitando cerca de 80 municípios dentre os mais violentos do País. “Conheci um Brasil com muita coisa por solucionar”, disse.

Permaneceu em Brasília até 2015, quando optou por se mudar novamente para Porto Alegre. Antes desse retorno, porém, registrou uma grande conquista literária: em 2013 publicou o romance O amante alemão, em que promove intertexto com as memórias de suas vivências em uma comunidade de cultura alemã (o enredo passa-se na cidade fictícia de Santa Luz). Com essa obra, ganhou o Prêmio Açorianos de melhor livro de ficção do ano, o que projetou seu nome no ambiente literário nacional.

Nos últimos anos, dedica-se a intensa produção ensaística e de crônicas, o que lhe permitiu lançar, em sequência, livros por editoras como a carioca Confraria do Vento. Um deles, Este outro mundo que esquecemos todos os dias, terá nova edição em breve. A mesma editora está em meio ao processo de editoração de novo livro de Lélia, A consulente sou eu, sobre a história do tarô, área com a qual ela também tem afinidade. E antecipa que se dedica à escrita de um novo romance, de tonalidade gótica, noir.

Em Porto Alegre, se diz bem-impressionada com a cena cultural, participando regularmente de palestras, colóquios, saraus. Além disso, circula pelo interior do Estado, visitando municípios pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e para falar junto a escolas de autoras como Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, através do projeto Autor Presente.

Para dar ares ainda mais tranquilos a sua atual temporada porto-alegrense, o filho Pedro, aos 29 anos, também veio de Brasília para se fixar na capital gaúcha – cidade na qual, e a partir da qual, afinal de contas, tanta coisa importante na vida de Lélia aconteceu. “E o Pedro, para meu orgulho, é um grande leitor. Adora cinema, música, literatura, artes plásticas, filosofia. E isso me deixa muito feliz.”

Assim, na condição de mãe, escritora, professora, ensaísta, pesquisadora, na próxima quinta-feira, dia 7, quando lançará sua mais recente obra na 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, estará compartilhando com os leitores mais um trecho das paisagens dessa estrada sem fim, mundo afora, que leva dentro de si.

Foto: Alencar da Rosa


Mundo de Letras
A matéria com Lélia é a décima-sétima da série Mundo de Letras, que destaca autores relevantes na literatura regional. Confira a relação dos já contemplados:
Valesca de Assis, escritora santa-cruzense radicada em Porto Alegre;
Airton Ortiz, escritor e jornalista de Rio Pardo, radicado em Porto Alegre;
Sérgio Schaefer, romancista natural de Santo Cristo e radicado em Venâncio Aires;
Mauro Klafke, poeta e escritor santa-cruzense radicado em Gramado Xavier;
Moina Fairon Rech, escritora santa-cruzense, que reside em sua terra natal;
José Alberto Wenzel, ambientalista e escritor, que atua entre Santa Cruz e Porto Alegre;
Lissi Bender, escritora, pesquisadora e professora aposentada santa-cruzense;
Ronaldo Wink, arquiteto, professor e escritor santa-cruzense, que reside na terra natal;
Benno Bernardo Kist, jornalista, nascido em Monte Alverne e radicado em Santa Cruz;
Valquíria Ayres Garcia, natural de Cachoeira do Sul e radicada em Santa Cruz;
Gil Kipper, natural de Santa Cruz do Sul e que reside nessa cidade.
Elenor José Schneider, natural de Cruzeiro do Sul e radicado em Santa Cruz;
Rudinei Kopp, santa-cruzense, escritor e professor universitário.
Mauro Ulrich, jornalista e poeta, natural de São Leopoldo e radicado em Santa Cruz;
Léla Mayer, escritora e professora, natural de General Câmara e radicada em Santa Cruz;
Henrique Kipper, chargista que cresceu em Santa Cruz e está radicado em São Paulo;
Lélia Almeida, escritora que morou em Santa Cruz e está radicada em Porto Alegre.
A próxima reportagem da série, em dezembro, vai contemplar o poeta e professor Demétrio de Azeredo Soster, natural de Porto Alegre e radicado em Santa Cruz, onde é professor da Unisc.