Literatura 18/11/2019 09h22

Canadense Margaret Atwood lança 'Os testamentos'

Três mulheres estão no centro da trama, ou seja, eis que agora o poder feminino parece entrar em cena e ditar os rumos futuros da civilização de Gilead

Uma das grandes damas da literatura contemporânea de expressão mundial completa 80 anos nesta segunda-feira, 18. A canadense Margaret Atwood, natural de Ottawa, a capital, situada na província de Ontário, próximo à divisa com os Estados Unidos, chega a suas oito décadas de vida com muita vitalidade, uma inabalável criatividade, e celebrada em escala global.

Lembrada de forma recorrente para o Nobel de Literatura, teve em alguns de seus romances, marcados por um enredo distópico, um chamariz contemporâneo para os leitores. O conto da aia, originalmente de 1985, tem sido mencionado e relançado por conta da sociedade de viés totalitário fundamentalista que apresenta. Ou seja, mais de três décadas passadas de seu lançamento, mostra-se atualíssimo e, na linha de Orwell ou de Huxley, evidencia o olhar visionário e intuitivo da autora.

Agora, os 80 anos de Margaret são enfatizados com o lançamento de uma continuação daquela história: Os testamentos chegou às livrarias brasileiras sob o selo da Rocco, que edita toda a sua obra no País. E Atwood merece ser lida não apenas pelo enredo desafiador em si. Sua escrita é elegante, de uma fluidez desconcertante. Sua produção transita por todos os gêneros (da poesia ao romance, dos contos ao infantil, da não-ficção ao ensaio, com quase 50 títulos), e, não raro, os mistura, numa originalidade de estilo.

Na ficção propriamente dita, envereda pela científica e pelo resgate histórico e, como tal, sua obra permite a alusão a temas fortemente atuais: os desmandos do poder, as injustiças sociais, a desigualdade, a necessidade de mais espaço para as mulheres em sociedade. Seus livros, isolados ou em conjunto, obtiveram inúmeras premiações, entre eles o Man Booker Prize de 2000 por O assassino cego, no Brasil traduzido por Lea Viveiros de Castro para a Rocco.

Em poesia, seu mais recente livro nesse gênero, A porta, de 2007, também mereceu edição no Brasil, e nele novamente explora, em forma de versos, os disparates e a insensatez que, de certa forma, marcam os caminhos da sociedade contemporânea, desencaminhando, assim, os indivíduos, fragilizados e isolados.

Mas Os testamentos anuncia-se mesmo como best-seller desse final de ano e, certamente, da virada de ano no mundo todo. Não há dúvida de que, a exemplo de O conto da aia, o novo romance será amplamente premiado, e talvez a alce em definitivo ao panteão do Nobel, como já poderia ter ocorrido. Em O conto da aia, um regime teocrático comanda a república fictícia de Gilead, o que motivou associações diretas com as formas de poder conservador em vários países no mundo contemporâneo – sem esquecer das alusões e das vendas que se multiplicaram em relação ao estilo Donald Trump de gerir os Estados Unidos.

Agora, em Os testamentos, três mulheres estão no centro da trama, em uma Gilead ainda comandada com mãos de ferro. Ou seja, eis que agora o poder feminino parece entrar em cena e ditar os rumos futuros da civilização de Gilead. E, como ocorre no plano da ficção, será que Atwood vislumbra alguma coisa do gênero também no mundo real? É ler para ver.

Ficha

Os testamentos, de Margaret Atwood. Tradução de Simone Campos. Rio de Janeiro: Rocco, 2019. 448 p. R$ 54,90.