ÍCONE 07/02/2020 17h08

Uma lenda não mais viva: relembre a carreira de Kirk Douglas

Ator, produtor e diretor que marcou época morreu na última quarta-feira, 5, aos 103 anos

Issur Danielovich morreu quarta-feira, 5. Ele nasceu numa localidade chamada Amsterdam, perto de Nova York. Viveu 103 anos e virou um ícone de Hollywood. Foi um ator de grandes papéis, um produtor audacioso e até um diretor competente. A essa altura, você deve estar pensando: “Quem é esse cara?”. Pois foi com o pseudônimo de Kirk Douglas que Issur se tornou conhecido. Teve um filho que também adotou o pseudônimo e, como Michael Douglas, prosseguiu a tradição artística familiar. Michael até ganhou o Oscar de melhor ator – por Wall Street, Poder e Cobiça, de Oliver Stone, em 1987.

O velho Kirk nunca foi “melhor ator”, mas não lhe faltaram honrarias. Seus pais foram imigrantes judeus de Mogilev, então Império Russo, hoje Bielorússia. Na “América”, Issur virou Izzy Demsky, mas já adotara o pseudônimo que se tornaria famoso antes de ingressar na Marinha, durante a Segunda Guerra. Antes disso, foi pugilista. E, para conseguir uma bolsa de estudos, inscreveu-se no grupo de atuação da St. Lawrence University. Tinha por colega Lauren Bacall, que ajudou para que conseguisse um papel no filme O Tempo Não Pára, de Lewis Milestone. O resto é história.

Kirk recebeu três indicações para o Oscar: por O Invencível, em 1949; Assim Estava Escrito, em 1952; e Sede de Viver, em 1956. Perdeu todas. Em 1995 a Academia outorgou-lhe um Oscar honorário. Sua carreira estourou numa época em que o filme noir estava no auge. O tipo físico do ex-pugilista e seu sorriso cínico ajustavam-se aos papéis. Consagrado como ator, tornouse produtor. Fez Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick, e chamou de novo o cineasta quando se desentendeu nas filmagens de Spartacus com o diretor original, Anthony Mann. Fez história em Hollywood quando Otto Preminger e ele deram crédito de roteirista a Dalton Trumbo.

Os anos 1990 foram duros com ele. Perdeu um filho para as drogas (Eric Douglas), sofreu um acidente de helicóptero e ficou com o corpo queimado, teve um derrame. Nem por isso deixou-se abater. Com a ajuda de um fonoaudiólogo, fez emocionados discursos ao receber seu Oscar honorário e o Urso da Berlinale. Tornou-se uma lenda. Nos anos 1970, comprou os direitos de um livro que pretendia adaptar e interpretar, mas transferiu os direitos para o filho.

Michael Douglas produziu Um Estranho no Ninho, Jack Nicholson fez o papel e o filme ganhou todos aqueles Oscars que o cinéfilo sabe, em 1975. No mesmo ano, Kirk, como diretor, fez o vigoroso western Posse – Ambição Acima da Lei, sobre linchamentos no Velho Oeste. Teve uma bela vida. Kirk Douglas possui uma estrela na Calçada da Fama, seu nome integra o Hall of Fame do National Cowboy & Western Heritage Museu, em Oklahoma City, e existe até uma rua com seu nome em Palm Springs, Califórnia. Acima de tudo, são perenes seus personagens inesquecíveis no imaginário do público.

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Kirk visitou o Brasil em 1963
Em fevereiro de 1963, o ator Kirk Douglas visitou o Brasil ainda se aproveitando do sucesso de Spartacus (1960), o filme em que atuou e produziu, chamando ninguém menos que Stanley Kubrick para ajudar na direção quando o projeto parecia que não ia decolar. Conforme relatado nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo, o ator e produtor visitou Brasília, passou o Carnaval no Rio e depois ainda viajou a São Paulo. Douglas chegou ao País pela então recém-inaugurada capital federal e, com simpatia, elogiou a arquitetura da cidade.

“O ator manifestou-se impressionado com a arquitetura de Brasília, assinalando que é realmente uma das mais expressivas obras em todo o mundo”, diz a reportagem publicada no jornal em 23 de fevereiro de 1963. “Disse, a propósito, que os norte-americanos em geral ‘têm uma outra filosofia: constroem mais devagar enquanto os brasileiros fazem tudo a jato’. Fez contudo uma crítica: não gostou dos móveis do Alvorada, pois preferiria ver ali moveis brasileiros, não os norte-americanos que encontrou.”

Ainda em Brasília, anunciou vontades (nunca realizadas) de produzir um filme sobre a vida de Juscelino Kubitschek, e também de interpretar Simon Bolívar. Em seguida, o ator foi para o Rio passar o Carnaval, “divertindo-se no baile no Municipal” (que ele definiria mais tarde como “tremendamente contagiante”). Ali, ele também recebeu uma homenagem do Instituto Brasil-Estados Unidos. A próxima parada da viagem foi São Paulo, onde “o ator foi envolvido por populares ainda no pátio de manobras do Aeroporto de Congonhas, assim que desembarcou”.

Em entrevista coletiva (“extremamente concorrida, com prejuízos para o trabalho dos cronistas especializados”), Kirk disse que achava a bossa nova “espetacular” e levaria como lembrança do Brasil uma “rede nordestina”. O ator lamentou não conhecer o cinema brasileiro, mas comentou que tinha interesse em assistir a O Pagador de Promessas. A reportagem informava que ele se encontraria com o governador paulista no Palácio dos Campos Elísios e passaria o fim de semana no Guarujá.

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