PELO MUNDO 02/01/2021 17h59 Atualizado às 21h18

Paisagem bíblica: uma incrível viagem pela Galileia

Destinos repletos de significados que contam a história e os passos de Jesus

O Monte Tabor (Har Tavor), local da transfiguração de Jesus Cristo, fica a 20 minutos de Nazaré. Para chegar ao topo, com 588 metros de altura, é preciso subir uma íngreme estrada em zigue-zague. No cume, sobre uma ruína bizantina do século 6, foi construída, em 1924, a Basílica da Transfiguração.

No local, de acordo com a Bíblia, Cristo falou com Moisés e Elias, na presença dos apóstolos Pedro, Tiago e João (Lucas 9:28-36). Por ter chegado 30 minutos antes do horário de abertura, fui caminhar sozinho entre as árvores do monte, refletindo enquanto admirava a vista de Nazaré e da região. Confirmo o que disse Jesus, naquela mesma passagem: “Aqui é bom estar”. Antes de descer, visito também a Igreja de Elias, construída sobre a Caverna de Melquisedeque.

O próximo destino foi o Mar da Galileia, ou Lago de Genesaré (Kinneret), alimentado pelo Rio Jordão. É a única fonte de água doce de Israel e, por isso, muito bem protegida de sírios e jordanianos. Às margens do Jordão, visito o lugar onde se crê que João Batista batizou Jesus, e que, lamentavelmente, tornou-se um local excessivamente turístico. Uma espécie de brete foi construído nas águas do rio, onde as pessoas mergulham, simulando seu próprio batismo. Fiéis levam a água do local em garrafas plásticas e frascos, e não se dão conta de que toda a água doce de Israel passou por ali.

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A Basílica da Transfiguração, no Monte Tabor, fica sobre uma ruína bizantina do século 6


O Rio Jordão é bastante estreito, praticamente um riacho. Desemboca no Mar da Galileia, vindo das montanhas de Golam, e continua, ao sul, em direção ao Mar Morto, delimitando a fronteira com a Jordânia. Fiz o contorno pela parte leste do lago, passando ao lado das montanhas que foram palco de batalhas entre sírios e israelenses, que lutavam pela região das montanhas de Golam. No almoço, saboreei o famoso peixe de São Pedro, pescado no encontro do Jordão com o Mar da Galileia.

Às margens do lago, em Tabgha, dois quilômetros ao sul de Cafarnaum (Kfar Nahum), cidade onde viviam a maioria dos apóstolos, duas igrejas lembram milagres descritos no novo testamento. A Igreja da Multiplicação dos Pães e Peixes marca o lugar onde Jesus, com cinco pães e dois peixes, alimentou uma multidão de 5 mil pessoas. Perto dali, a Igreja da Primazia de São Pedro celebra esse milagre, quando Cristo ordenou a Pedro, frustrado com a ausência de peixes, que atirasse as redes, a cem metros das margens, que então retornaram abarrotadas com um abundante cardume.

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Aidir Parizzi Júnior aprecia as águas do icônico Jordão, onde Jesus teria sido batizado


Sempre que faço uma refeição com minha família, rezamos uma oração que aprendi com meus pais. Nela pedimos que Deus dê o pão a quem tem fome, mas que também dê sede de justiça a quem tem o pão. Com aquela oração em mente, que lembra uma das bem-aventuranças, cheguei ao Monte das Beatitudes, onde Jesus proferiu o Sermão da Montanha (Mateus 5).

O lugar tem uma vista espetacular do lago, dos campos e da cidade de Cafarnaum, logo abaixo. Uma igreja em formato octogonal, lembrando as oito bem-aventuranças, foi construída por missionários italianos em 1938, e inaugurada por Benito Mussolini. Nesse caso, o fascista acertou, mas, como lembra o ditado, até um relógio quebrado estará certo duas vezes por dia. No ano 2000, o papa João Paulo II rezou uma missa no local para mais de um milhão de pessoas.

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Monte das Bem-Aventuranças, na Galileia, onde Jesus proferiu o Sermão da Montanha


No final da tarde cheguei em Naharia, balneário paradisíaco na costa do Mediterrâneo. Jantei em um restaurante tradicional na rua principal da cidade, assistindo à emocionante partida entre México e Argentina pelo mundial da Alemanha de 2006.

Caminhando de volta ao Hotel Carlton pela movimentada rua principal, notei um carro BMW conversível com dois jovens escutando música árabe a pleno volume, que aceleravam em um cruzamento, assustando as pessoas que atravessavam a rua. Ninguém protestou, ainda que fosse perceptível uma certa tensão.

Tenso, aliás, era também o clima nas fronteiras de Israel com seus vizinhos naquele verão de 2006, o que me fez dormir com a sensação ruim de que algo estava mesmo por acontecer. De volta em casa, naquela mesma semana, assisti com surpresa a uma reportagem da rede CNN, que mostrava que Naharia havia sido pesadamente bombardeada pelos foguetes Katyusha, lançados do Líbano pelo Hizballah. O restaurante do Hotel Carlton, de onde era transmitida a reportagem, havia sido transformado em abrigo antibomba, ali mesmo onde, poucos dias antes, eu tomava o café da manhã tranquilamente.

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