PELO MUNDO 13/02/2021 15h13

Sultanato de Omã: uma oração ao silêncio

Estado independente mais antigo do mundo árabe é também um dos mais liberais. População não paga impostos e criminalidade praticamente inexiste

Meu café da manhã em Mascate foi antes de o sol nascer. Era o mês do Ramadã, período entre luas crescentes de jejum ritual e reflexão para os muçulmanos. Embora cristão, achei por bem seguir essa tradição local de abstinência, entre a alvorada e o entardecer. Pelas ruas da capital não havia muita gente e, em vários lugares que visitei, eu estava completamente sozinho.

Caminhando pelos imensos e floridos jardins da Mesquita Sultão Qaboos, a maior do Sultanato de Omã, o silêncio parecia inundar as 300 mil toneladas de suas paredes e colunas areníticas. Na principal Musalla, ou sala de oração, construída para acolher até 7 mil pessoas, escuto meus pés descalços sobre os 4.300 metros quadrados e 21 toneladas do maior tapete decorado do mundo, feito em peça única que levou quatro anos para ser concluída.


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William Shakespeare, na comédia Muito Barulho por Nada, escreveu que “o silêncio é o mais perfeito emissário da alegria”. Se estivermos no estado de espírito adequado, a quietude nos abre para o mundo. Durante a pandemia de 2020, vendo as imagens vazias de ruas e praças outrora lotadas, fiquei com a impressão de que o tempo estava parcialmente suspenso, com as lembranças, música de fundo do presente, nos recordando como e com quem chegamos até aqui.

Grande Mesquita Sultão Qaboos


Omã é uma nação de 4,6 milhões de habitantes. Sendo uma monarquia absoluta, a autoridade do sultão é inviolável, e, desde 1744, o poder está nas mãos da dinastia Said. O sultão Qaboos Bin Said, que faleceu no início de 2020, assumiu o poder em 1970 e modernizou o sultanato, fazendo-o crescer mais do que qualquer outro país árabe. Seu primo e sucessor, Haitham Bin Said, é quem hoje comanda o estado independente mais antigo do mundo árabe, que, como o Catar, é um dos mais liberais, ainda que seja regido pela lei islâmica, a Sharia.

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Mascate esteve sob domínio português de 1508 até a tomada otomana, em 1648. Nas escarpas rochosas que circundam a cidade velha e o Palácio Real, os fortes de Al Mirani (do português “almirante”) e Al Jalali (originalmente Forte de São João) restaram como testemunhos da presença lusitana. Ao contrário da maior parte da desértica península arábica, o relevo do país é muito diversificado, com montanhas que chegam a 3 mil metros de altura, flora abundante nos meses de verão e animais típicos da região, como o elegante órix.

Forte de Al Jalali, antigo Forte de São João, em Mascate


Mutrah Souq é um dos mercados livres mais antigos do planeta, e, como sempre, carrega história e vida própria por entre roupas, incensos de olíbano, joias e lembranças com o símbolo do país, a adaga curva (khanjar). Setenta e cinco por cento da população é muçulmana e 43% são estrangeiros, na sua grande maioria indianos, mão de obra que construiu e constrói a rica nação.

Os petrodólares gerados pela produção de 900 mil barris diários permitem que a população seja isenta de impostos e usufrua de bem-estar e de moderna infraestrutura. A condição digna faz de Omã um dos países mais seguros do mundo, livre de terrorismo e com criminalidade praticamente inexistente.

Royal Opera House em Mascate


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Mascate, naqueles dias escaldantes do Ramadã, proporcionou-me um renovado significado ao silêncio. Por vezes, o destino físico torna-se um caminho para pontos de chegada da mente e da alma. Em outras, a estrada palpável, ou quem nela encontramos, pode revelar-se como o verdadeiro destino, que nos transforma e dá sentido à nossa curta permanência. Afinal, para a espécie humana, em movimento e evolução constantes, objetivos alcançados precisam, invariavelmente, indicar-nos a próxima meta.

Na narrativa do bardo inglês, as últimas palavras do príncipe Hamlet, à beira da morte, são: “O resto é silêncio”, o sucessor invencível da existência. Felizmente, a reflexão taciturna não se traduz sempre em encerramento ou ausência, podendo constituir preparação e prenúncio para um tempo melhor.

Aidir Parizzi Júnior diante do Palácio Al Alam, residência do Sultão de Omã

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