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Edição de - Curiosidade
O homem que negou o Holocausto
Fonte: Arquivo Pessoal Clique para Ampliar

O tênue limite entre a liberdade de expressão e a discriminação racial é um assunto ainda não resolvido no Brasil. A legislação trata como crime a publicação de obras induzindo à discriminação ou ao preconceito de raça, cor, religião ou etnia. O principal divulgador de ideias revisionistas do Holocausto, S.E. Castan, pseudônimo de Siegfried Ellwanger, não poderia fugir à condenação muito menos à fama de defensor do Nazismo, mesmo depois de sua morte, em 11 de setembro de 2010, de acordo com sites e blogs “negacionistas”.
Odiado pela maioria e amado por uma esmagadora minoria que teima em estudar seus livros até hoje, seja em sites especializados, redes sociais da internet ou grupos fechados nos quais é quase impossível penetrar, S.E. Castan é um entre tantos exemplos de pessoas que negaram o que fotografias deixaram evidente e narrações provam, tendo como base o “Revisionismo Histórico”. Para ele, as imagens foram falsificadas e os relatos de judeus que estiveram em Campos de Concentração, como  Auschwitz por exemplo, não passaram de uma mentira pregada por pessoas que armam um complô para dominar o mundo.

Siegfried Ellwanger, mais conhecido por S.E. Castan, sobrenome usado para homenagear a mãe, não é um estrangeiro ou desconhecido, pelo contrário, apesar de sua história ter sido sepultada da memória histórica de toda região, inclusive da mídia. Ele nasceu em Candelária, no dia 30 de julho de 1928. Sua instrução primária foi feita em sua cidade natal e, logo depois em um colégio de Santa Cruz do Sul. Porém, nunca completou os estudos.

Siegfried ficou famoso pela Editora Revisão, que se destinava a publicar livros sobre o revisionismo. A empresa foi fechada depois de várias batalhas judiciais. Muitos integrantes de sua família precisaram deixar o Vale do Rio Pardo e depois a capital do Estado em virtude de inúmeras represálias.

Condenado por racismo pelo Supremo Tribunal Federal, teve os livros apreendidos em diversas oportunidades, inclusive durante uma edição da Feira do Livro em Porto Alegre. Todas as obras de sua editora, que também publicou livros de outros revisionistas, se resumem a conteúdo considerado pelo governo brasileiro como “anti-semita”.

Embora os livros façam parte de uma lista de obras “proibidas”, se é que isso ainda existe em um país que se considera democrático, muitas pessoas continuam a estudá-los. A Biblioteca da Universidade de Santa Cruz do Sul possui um exemplar de “Holocausto Judeu ou Alemão? Nos bastidores da Mentira do Século”, de S.E. Castan. Também disponibiliza a qualquer estudante um dos livros mais conhecidos sobre um suposto complô judaico para dominação mundial. “Os protocolos dos Sábios do Sião”, entre outros.

Nazismo e “neo nazismo”
De acordo com o professor de História da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) Roberto Radünz, o nazismo foi uma ideologia fascista, totalitária, que se assentava na exaltação de violência, da infabilidade do líder, na obediência crédula aos preceitos partidários e que foi co-responsável em grau máximo pela 2ª Guerra Mundial. Essa ideologia já está expressa na obra Mein Kampf  “Minha Luta” de Hitler escrita nos anos 20. Nesse livro os fundamentos nazistas são apresentados como dogmas a serem seguidos. Para ele, o caso Castan  é o retrato fiel do revisionismo histórico sem postura acadêmica. “O historiador, como qualquer outra pessoa ligada à academia ou não, tem posições políticas e ideológicas que decorrem da sua formação. Essas acabam influenciando na escolha dos temas a serem trabalhados ou discutidos - portanto a própria escolha não é neutra”, frisa.

As obras

A distorção dos livros de negacionistas é repassada de uma forma em que ou se aceita a negação completa do holocausto, ou o leitor é um “boneco” controlado por forças judaicas secretas. Siegfried Ellwanger, juntamente com Sérgio Oliveira, ex-sargento do Exército Brasileiro durante a ditadura militar, são os mais conhecidos revisionistas do país. A grande maioria das obras de Castan pode ser acessada pela internet em blogs ou sites de downloads de músicas e livros. Existem várias comunidades em redes sociais como Orkut e Facebook com os nomes Editora Revisão, Negacionismo e Siegfried Ellwanger Castan.

Pesquisador e colecionador e leitor de assuntos sobre a 2ª Guerra Mundial, após visitar diversos campos de concentração na Alemanha e Polônia escreveu o  1º livro “Holocausto Judeu ou Alemão? - Nos Bastidores da Mentira do Século.

Também escreveu “Acabou o Gás... O Fim de um Mito”, que contém o relatório do especialista norte-americano em câmaras de gás, Fred Leuchter Jr., que supostamente prova a impossibilidade de terem existido câmaras de gás para execução de pessoas nos campos de concentração de Auschwitz, Birkenau e Majdatiek.

Também é autor de “ SOS para Alemanha ”; que pode ser considerada uma verdadeira continuação de sua primeira obra. Escreveu “A Implosão da Mentira do Século “, contendo o relatório polonês sobre as alegadas câmaras de gás de Auschwitz. Entre outras atividades no ramo industrial,  Castan fundou a Editora Revisão, pela qual publicou mais de 20 livros, todos de cunho negacionista.

Condenação
Em 1991, é determinada a busca e apreensão dos exemplares das obras Holocausto Judeu ou Alemão? Nos bastidores da mentira do século, de S.E. Castan, A História Secreta do Brasil, Os Protocolos dos Sábios de Sião e Brasil Colônia de Banqueiros, de Gustavo Barroso (ou prefaciado por ele), O Judeu Internacional, de Henry Ford, Hitler Culpado ou Inocente?, de Sérgio Oliveira, Os Conquistadores do Mundo, os verdadeiros criminosos de guerra, de Louis Marschalko.

Em 1995, Castan foi julgado e absolvido em primeira instância. Numa decisão inédita na América Latina, em 1996 foi condenado por unanimidade pelos desembargadores da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Em 2003 o Supremo Tribunal Federal o condenou de forma definitiva, foi o primeiro caso de condenação, na América Latina, de um “revisionista”.

Revisionismo criminoso
O professor de história da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) Mozart Linhares da Silva, destaca que o revisionismo que coloca em dúvida o holocausto é no mínimo criminoso. Um atentado contra a inteligência. “E isso quem diz são os próprios alemães, ou será que não lembramos do reconhecimento público feito pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em Israel, há 3 anos? Na Alemanha há uma legislação especifica para tratar dessas questões relacionadas à memória do holocausto. Lá revisionismo é crime. O campo de concentração é o fato mais marcante da história moderna e contemporânea. É preciso lembrar também que é um dos acontecimentos mais documentados”, cita.

Para Mozart, o acontecimento mais importante do século 20 jamais deixaria de ter sustentação documental. Com o avanço da digitalização dos acervos de documentação, há na internet um manancial impressionante de provas do que aconteceu entre 1933 e 1945 nas regiões de domínio da Alemanha.

Segundo o professor, há quem acredite ainda nos Protocolos dos Sábios do Sião, comprovadamente falsos há muitas décadas. “E isso não impede que os mal-intencionados voltem a esse engodo”, frisa.

Indústria do Nazismo
O professor da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ambas de Porto Alegre, o cientista social René Gertz, é uma das grandes referências em Nazismo e Neonazismo no Rio Grande do Sul.

GS: Que reflexos o Nazismo deixou para a sociedade?
René Gertz:
Para a sociedade brasileira, muito pouco, a não ser uma consciência crítica. Imagino que você esteja pensando nisso, no Brasil. O nazismo aqui foi muito pequeno. Claro, alguns nazistas ficaram por aqui, outros talvez tenham vindo depois da guerra, mas tínhamos uns 400 em todo o estado. Não podem ter feito muita coisa. Aliás, lembra que os “neonazistas” fichados pela polícia são 40 em todo o RS. Existe um livro chamado a “A indústria do Holocausto”. O que eu tenho trabalhado é mais ou menos a indústria do nazismo e mais recentemente do “neonazismo”. No caso aqui do RS, qualquer besteira que se disser sobre isso, alguém vai acreditar. Não há uma única ação comprovada que se possa classificar de atentatória ao Brasil por parte do nazismo aqui no RS.

Bombardeiros aos alemães
Os “neonazistas” são 40, mas certas autoridades e certa imprensa simplesmente gostariam que se bombardeasse Santa Cruz do Sul para acabar com os alemães. Isso é tão terrível quanto os “neonazistas” quererem acabar com os judeus, os negros e outros. Infelizmente, isso até é dito por pessoas de enorme responsabilidade na sociedade.

Minha atividade tem sido de apontar para os preconceitos que isso esconde e a realidade de que essas pessoas são tão racistas quanto os racistas que elas combatem. Isso faz com que algumas pessoas achem que sou, no mínimo, simpatizante do “neonazismo”.

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