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Edição de - Letras
A nau dos insensatos
Fonte: Divulgação Clique para Ampliar

Cassionei Niches Petry*
* cassio.nei@hotmail.com

As mitologias também não nos deixam esquecer da condição da circularidade. No livro sagrado dos cristãos, é célebre o versículo do Gêneses, afirmando que o homem é pó e ao pó retornará. Também é da Bíblia, mais precisamente do Eclesiastes, a epígrafe do romance O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo: “Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O Vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos”.
Povos antigos viam no oroboro, a serpente que morde a própria cauda, um símbolo dessa dinâmica da vida. É uma figura que me chama muito a atenção, apesar de sua ligação com questões místicas. Da mesma forma, há o escorpião encalacrado, que mata a si próprio com o veneno de sua cauda. Não podemos esquecer também a roda da fortuna... Nas artes, essa circularidade está presente na metalinguagem. O texto se volta sobre o próprio texto, a pintura retrata a própria pintura, a imagem dentro de outra imagem. Fiz toda essa volta justamente para escrever sobre um autor cuja obra se debruça sobre o tema da metalinguagem, seja no ensaio, seja na narrativa.
Gustavo Bernardo, escritor e professor carioca, escreveu O livro da metaficção, um verdadeiro tratado sobre o tema. Como romancista, põe em prática o que estudou na teoria. Escreveu Lúcia, cujas personagens nos remetem a José de Alencar, e o infantojuvenil Reviravolta, cujo título fala por si próprio. Em A filha do escritor (Agir Editora, 152 páginas), Bernardo faz uma releitura ficcional da obra de Machado de Assis e de momentos obscuros da sua vida. São livros dentro de outro livro, a literatura dentro da literatura.

LOUCURA? – Uma jovem chamada Lívia chega a uma clínica de doentes mentais dizendo ter marcado um encontro com seu pai. O psiquiatra, Dr. Joaquim, pergunta quem é ele. A resposta o deixa intrigado: Machado de Assis, morto cerca de cem anos atrás. A mulher ainda afirma estar acompanhada pelo filho, Luís, na verdade um filho imaginário, e que se hospedará ali enquanto aguarda a chegada de seu pai. “Ela é esquizofrênica”, diagnostica o médico num primeiro momento, contando a história a um interlocutor só revelado – ou não – no final. No decorrer da narrativa, vamos sendo envolvidos na investigação de Joaquim, que tenta entender o mistério, pois ele começa a desconfiar que a mulher não é tão louca como ele pensa, além de começar a se sentir atraído por ela. Imaginação e realidade se mesclam, e o leitor é levado, sem nenhum fio de Ariadne, para o meio do labirinto mental onde estão as personagens.
As referências literárias são deixadas bem claras pelo próprio narrador: Lívia era o nome da protagonista do primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição, assim como o hospício tem as janelas verdes e se situa na mesma cidade do estabelecimento comandado por Simão Bacamarte, em O alienista. Há também uma menção ao filho de José de Alencar, que seria na verdade do Bruxo do Cosme Velho, sem contar que Joaquim também é o prenome do nosso grande escritor. Outros autores aparecem dentro dessa “babuska” que se torna o romance de Gustavo Bernardo. Quanto mais tiramos uma boneca de dentro da outra, outra surge, escondendo outra boneca e assim sucessivamente.
Gustavo Bernardo faz da literatura e da loucura seus temas, de como a primeira pode nos deixar loucos de tanto ler, ou de como a segunda pode nos levar a escrever. Fica o convite para o leitor: entre nessa nau dos insensatos que é a literatura, depois saia dela, depois entre de novo e de novo e de novo...

*Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. É passageiro dessa nau dos insensatos, lendo, escrevendo e comentando aqui no Mix quinzenalmente e também no seu blog cassionei.blogspot.com.

prateleira

As aventuras de Tintim: O segredo do Licorne & O tesouro de Rackham, o Terrível, de  Hergé – Enquanto aguardam a chegada do filme As Aventuras de Tintim, os fãs do herói dos quadrinhos já podem se deliciar com a edição especial dupla dos episódios que inspiraram a trama. Na história, levada ao cinema pelo diretor Steven Spielberg e pelo produtor Peter Jackson, não faltam piratas, navios, tesouros e grandes emoções. Sempre com o cachorro Milu ao seu lado e a ajuda dos detetives Dupond e Dupont, Tintim vai tentar descobrir o mistério que envolve as réplicas em miniatura do Licorne, o misterioso navio do cavaleiro de Hadoque. Tintim compra para o amigo Haddock o modelo de um galeão antigo, que, por coincidência, é a réplica do navio de um antepassado do capitão, o cavaleiro de Hadoque. O modelo é roubado, e logo depois a casa de Tintim é toda revirada. Em O tesouro de Rackham, o Terrível, Tintim e o capitão Haddock, já de posse das três partes do mapa com a localização do naufrágio da embarcação de Rack-ham, partem em busca dos destroços do Licorne.

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