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Cassionei Niches Petry
* cassio.nei@hotmail.com
Há muito a dizer sobre Nada a dizer, de Elvira Vigna (Companhia das Letras, 161 páginas). O espaço, porém, é limitado, o que é bom, pois só assim escapo da tentação de contar tudo e afastar, dessa forma, o leitor da obra. Sugerir é mais sensato, provocar a leitura, dar pistas talvez. Bem, o melhor é dizer pouco.
Carioca, nascida em 1947, Elvira Vigna tem uma obra consolidada, que inclui romances como Coisas que os homens não entendem e Deixei ele lá e vim. É uma escritora que sabe o que quer dizer e diz. Seus projetos literários são baseados em estudos teóricos bem fundamentados que ela expõe em palestras ou vídeos disponíveis no seu site. Não é diferente com esse Nada a dizer.
No romance, há uma história de adultério. Tema que pode parecer comum, mas que na mão da escritora ganha outro brilho, pela maneira como é contada, pela voz que relata, pela forma como ficamos sabendo da traição. Aliás, o ponto de vista da narrativa, para quem não lê a orelha ou a contracapa do livro, é uma surpresa que se desvenda logo no início, mas que já demonstra o trabalho criterioso da autora. É difícil, inclusive, resumir parte do enredo sem falar sobre o narrador. Tentaremos.
A personagem principal, cujo nome desconhecemos, é casada com Paulo. Ambos estão recém se mudando do Rio de Janeiro para São Paulo. A casa ainda por arrumar tem caixotes espalhados pelos cômodos, dando um indício do que acontecerá com os dois. A vida deles será bagunçada devido a algumas visitas que Paulo faz ao Rio de Janeiro, com o pretexto de encontrar os amigos e jogar futebol. Através de troca de e-mails, conversas no Skype e mensagens de celular, o marido marca encontros com N., uma amiga do casal no Rio. A mulher traída, depois de descobrir tudo, lê obsessivamente os rastros de conversas que foram deixados, bem como o blog escrito pela amante, numa tentativa de entender os motivos de o marido, já com seus sessenta e poucos anos, se envolver com uma mulher 20 anos mais nova.
MENTIRAS – Paulo, num primeiro momento, nega tudo. Mente. Mas depois confessa, a esposa o ouve e expressa esse momento numa das passagens mais belas do romance: “Não sei como exprimir o que vivi. Eu teria de falar em frases lentas, muito suaves, uma música de câmera dessas que nos embalam e se preocupam em nos avisar quando terminam graças aos compassos em tom menor, mais curtos. Quando então saímos de nossa letargia para bater palmas discretamente e nos dirigir à pessoa ao lado, com acenos de cabeça, sim, a execução foi exatamente como esperávamos, sim, muito satisfatório esse sentimento de realização que nos fica quando acompanhamos até o fim uma melodia”.
Paulo havia mentido para a mulher. É a mentira que torna o caso uma traição. Não ter nada a dizer sobre o que aconteceu, negar tudo. O romance, por isso, é muito mais sobre a mentira do que o adultério. Mentir é inerente ao ser humano. A história escrita por Elvira Vigna pode ser uma mentira. O escritor mente e cria personagens que mentem, inclusive a própria mulher traída mente. Por isso dizemos que um romance é uma ficção. A mentira aqui serve para mostrar a verdade, revelar questões humanas que só se revelam na ficção. Acreditamos mais em uma mentira bem contada do que numa verdade com roupa rota. Inclusive esta resenha pode ser mentirosa, mas sobre isso não tenho nada a dizer. O que tenho a dizer é que Nada a dizer é um romance que merece e deve ser lido. Pronto, já disse.
*Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Como deseja ser escritor, está se especializando na arte da mentira. Escreve suas impressões de leituras no Mix quinzenalmente e mantém o blog cassionei.blogspot.com.
prateleira
O Pequeno Filósofo – Autor frequente nas listas de best sellers brasileiros, Gabriel Chalita é conhecido por sua competência literária: passeia com desenvoltura por uma diversidade de gêneros, do ensaio à poesia, do texto epistolar à ficção, do teatro a obras jurídicas. Qualquer que seja o estilo adotado, porém, um tema parece sempre ecoar em grande parte da sua encorpada bibliografia – a filosofia. Lançamento da Editora Globo, O pequeno filósofo apresenta ao leitor uma reflexão filosófica sobre os assuntos mais complexos, revestidos de uma linguagem acessível a um público amplo.
Com simplicidade, essa delicada obra de ficção se configura como uma verdadeira aula acerca do método socrático. A técnica de investigação filosófica criada por Sócrates – e que segue em uso até hoje – baseia-se em diálogos nos quais, por meio de perguntas simples, o mestre conduz o aluno a aprender, a pensar por si mesmo e a descobrir seus próprios valores.
O livro tem 116 páginas e é quase todo constituído de diálogos entre dois personagens: o narrador e o pequeno filósofo. Pouco se diz a respeito deles. Ao longo da narrativa e das conversas o narrador revela-se aos poucos, timidamente. Nada é explícito. Toda a história transcorre em clima onírico, sem tempo nem lugar definidos, como se tudo fosse mantido fora de foco para dar todo o destaque ao embate de ideias provocado pelo pequeno filósofo.