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Edição de - Letras
O veneno da religião segundo Hitchens
Fonte: Divulgação Clique para Ampliar

Cassionei Niches Petry
* cassio.nei@hotmail.com

Escritor e jornalista, Christopher Hitchens – morto recentemente devido a um câncer no esôfago, aos 62 anos – era um dos “Quatro Cavaleiros do Ateísmo”, juntamente com Richard Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris. A denominação é uma brincadeira com a profecia bíblica do Apocalipse, já que esses pensadores lideram um movimento – chamado neo-ateísmo – de combate à religião e a tudo de nefasto que ela traz. Hitchens expôs essa ideia em Deus não é grande – como a religião envenena tudo (Ediouro, tradução de Alexandre Martins, 304 páginas).
O autor inicia o livro falando sobre sua professora na escola primária, a sra. Watts, que ensinava sobre a natureza e as Escrituras. Em uma das aulas, ela afirmou que Deus, poderoso e generoso, teria criado as árvores e a grama verdes, por ser a cor mais repousante para os olhos. O pequeno Hitchens, de apenas 9 anos, percebeu o falso conceito da professora, pois, pela lógica, os olhos estão ajustados à natureza, não o contrário. O episódio destruiu não só a admiração que o aluno nutria pela professora, como também sua fé.
A partir desse momento, começou a notar “outras esquisitices”: “Se Deus era o criador de todas as coisas, por que deveríamos ‘louvá-lo’ de forma incessante por fazer o que para ele teria sido tão natural? (...) Se Jesus podia curar um cego que tinha conhecido, por que não podia curar a cegueira? (...) Apesar de todas aquelas orações constantes, por que não havia resultado?”. Nascia aí, bem jovem, o antiteísta polêmico.
Os capítulos subsequentes (com títulos como “A religião mata” e “A religião é abuso infantil?”) trazem informações críticas sobre como as religiões, sobretudo as monoteístas, tentam de todas as formas serem as donas de uma verdade absoluta, impondo aos demais sua crença. Os argumentos usados por Hitchens se valem, além das histórias pessoais, de análise de textos religiosos e relatos documentados. O 11 de setembro, por exemplo, é uma presença constante no livro, uma vez que o extremismo religioso islâmico foi o motor das ações terroristas, justificadas por passagens do Corão. O islamismo também é criticado pela sentença de morte contra o escritor Salman Rushdie, depois da publicação de Versos Satânicos, o que obrigou seu autor a viver durante anos sob forte aparato de segurança.

CONTRA TODOS – O livro também reserva espaço à Madre Teresa de Calcutá. Hitchens conheceu de perto o trabalho da religiosa ao realizar uma reportagem e escreveu um livro (The Missionary Position) sobre o falso interesse dela pelos pobres, o que o levou a ser convidado pelo Vaticano para ser o “Advogado do Diabo” no processo de beatificação da freira, pois também havia desmascarado um falso milagre atribuído a ela. Em Deus não é grande, Christopher (nome irônico para um ateu, não acham?) a chama de “freira ambiciosa”.
É importante que se diga: o livro de Hitchens não se propõe a converter ninguém, como apregoam seus detratores. Deus não é grande deve ser lido, afirmo eu, por quem já é descrente e procura se aprofundar no tema, já que a obra é repleta de informações de quem, como jornalista, conhecia bem a realidade mundial e não tinha medo de expor suas críticas às religiões, que “ensinam as pessoas a pensar em si de forma abjeta, como pecadoras infelizes e culpadas, prostradas frente a um deus raivoso e ciumento”. Como afirmou Richard Dawkins, ao se despedir do amigo, Hitchens “foi um homem que lutou contra todos os tipos de tiranos, incluindo Deus”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Para desgosto da família, é ateu. Escreve suas impressões de leituras no Mix quinzenalmente e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

prateleira

Conto de Natal de Auggie Wren – Um escritor recebe do jornal The New York Times  a encomenda de um conto para ser publicado na manhã de Natal. Ele decide aceitar, mas tem um problema: como escrever um conto de Natal que não seja sentimental?
Resolve se abrir com o amigo que trabalha na tabacaria do bairro, um personagem pitoresco chamado Auggie Wren, que promete resolver seu problema: em troca de um almoço, vai lhe contar a melhor história de Natal que já ouviu. E é uma história nada convencional a que ele conta, envolvendo uma carteira perdida, uma mulher cega e uma ceia de Natal.
Tudo é virado de ponta-cabeça. O que é roubar? O que é dar? O que é uma mentira? O que é a verdade? Conto de Natal de Auggie Wren é de fato uma história nem um pouco sentimental, mas nem por isso pouco comovente.
A presente edição, em capa dura e com lombada em tecido, traz as ilustrações da premiada ilustradora argentina Isol. Escrito por Paul Auster, o livro é da Companhia das Letras.

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