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Edição de - Presos
A queda dos cangaceiros
Fonte: Rodrigo Assmann Clique para Ampliar
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O veterano, o assassino e o chefe. Os três cangaceiros, assim autointitulados, sucumbiram diante da lei. Nilson César da Silva, o Nilsinho, 42 anos, Marcos Leandro Martinazzo, 29, e Alexandre de Oliveira, o Nirinho, 27, foram presos pela Polícia Civil na madrugada dessa sexta-feira, deixando acéfala a quadrilha que durante quatro meses aterrorizou o Vale do Rio Pardo com assaltos a residências e estabelecimentos comerciais.
Nirinho, líder do bando, e seus dois principais comparsas estavam escondidos em um sítio alugado no distrito de Rincão Del Rey, no interior de Rio Pardo. Foram surpreendidos por 15 agentes e cinco delegados pouco antes da 1 hora. Segundo o delegado Luciano Menezes, titular da Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec) de Santa Cruz do Sul e coordenador da operação, desde quarta-feira o local vinha sendo monitorado pela polícia.
O cerco começou por volta das 15 horas de quinta, quando aos poucos os policiais foram se embrenhando em lavouras e matagais para cercar a casa, localizada no fim de uma estrada de terra e distante três quilômetros do asfalto. Os agentes e delegados se dividiram em quatro grupos e ficaram na espreita. Ao longo do entardecer, acompanharam as entradas e saídas do trio, utilizando motos depois reconhecidas como roubadas. Horas de silêncio e paciência, até o momento da abordagem precisa.
Inspirado nos cangaceiros nordestinos do início do século passado, que usavam o conhecimento das rotas de sua região para despistar as autoridades, o bando tornou complicado o trabalho da polícia. “O QG do grupo mudava muito e isso acabou dificultando a prisão”, disse o delegado. O Nordeste da quadrilha era a zona rural do Vale do Rio Pardo. Fortemente armados, os três arregimentavam outros comparsas e rendiam famílias em busca de armas, dinheiro e veículos.
Nirinho, morador do Bairro Progresso, estava foragido do Presídio Regional de Santa Cruz desde o início de novembro. O venâncio-airense Nilsinho foi um dos poucos que permaneceram na rua após uma fuga em massa do Presídio Estadual de Encruzilhada do Sul, no mês passado. Condenado a 33 anos de prisão por roubo, fugiu depois de dez atrás das grades. Era o experiente do bando. E Martinazzo, de Vera Cruz, era procurado desde outubro, quando matou a ex-namorada com requintes de crueldade.
Os três se renderam à investida da polícia. No chalé alugado por Nirinho há uma semana por R$ 300,00, os agentes recolheram munição, dois revólveres e uma pistola, dois coletes à prova de bala, duas motos, dinheiro e roupas. E recuperaram boa parte da sensação de segurança que a região havia perdido desde o fim do ano passado.

“Eu não sou tudo isso”, diz Nirinho

Enfileirados lado a lado contra uma das paredes do chalé que desde o último fim de semana servia como esconderijo, Alexandre de Oliveira, o Nirinho, Nilson César da Silva, o Nilsinho, e Marcos Leandro Martinazzo pareciam pouco impressionados com a prisão. Era como se esperassem a captura por uma questão de tempo. E a cadeia, ao que deram a entender, também não é grande problema. Na companhia dos delegados Ana Luísa Aita Pippi e Marcelo Chiara Teixeira, e de agentes da Polícia Civil, eles conversaram com exclusividade com a Gazeta do Sul.

ENTREVISTA

Gazeta do Sul – Planejavam mais assaltos para este fim de semana?

Marcos Martinazzo – Não, a gente tava só em casa.

Gazeta – Participou de quantos assaltos, Martinazzo?

Martinazzo – Nenhum. Uma vez eu tava trabalhando no fumo e um dia foram lá e me botaram na cadeia, no dia do aniversário do meu filho. Me condenaram a dez anos por um roubo que eu não fiz, não tinha nada a ver.

Gazeta – Mas aí matou tua mulher.

Martinazzo – Eu consegui provar que não fui eu que assaltei, mas o que adianta, depois de puxar um ano e pouco de cadeia? Acabou com a minha vida. Eu saí de lá transtornado, descobrindo um monte de coisas. Eu dizia pra minha mulher sempre: se tu acha que vai ser ruim esperar, numa boa, vamos nos separar. Aí eu ia sair, pagar pensão pros meus filhos e já era. Vendi meus bois, vendi tudo que eu tinha pra não deixar faltar nada pra ela enquanto eu estava na cadeia. E aí ela fez tudo aquilo? Eu não ficava com um centavo. Todo dinheirinho eu mandava pra ela e ela me traiu.

Gazeta – Então ela foi a culpada por ter morrido?

Martinazzo – Não, não estou dizendo que ela foi a culpada, mas tudo levou a isso aí. Eu sei que nada vai justificar o que eu fiz.

Gazeta – Se arrependeu?

Martinazzo – Sim, né. Nunca mais pude ver meus filhos.

Gazeta – Como conseguiu fugir tanto tempo da polícia?

Martinazzo – Indo de lugar em lugar. Não parava, não tinha paradeiro. Aqui faz uma semana.

Gazeta – E você, Nirinho, é mesmo tudo o que estavam dizendo que é, líder de quadrilha?

Nirinho – Eu não sou tudo isso. Muita mídia.

Gazeta – Por que fugiu da cadeia? Quanto tempo aquela fuga foi planejada?

Nirinho – Não planejei fuga nenhuma. Eu tava fumando pedra e pulei a rede.

Gazeta – Mas e como já tinha gente te esperando lá fora?

Nirinho – Não era pra mim.

Gazeta – Fugiu sozinho, então?

Nirinho – Sozinho ninguém foge. Problema deles, lá no presídio.

Gazeta – Você foi visto pela polícia saindo várias vezes daqui de moto. Pra onde ia?

Nirinho – Pra casa (a residência da família, no Bairro Progresso, em Santa Cruz). Eu tava sempre lá. Eu ia e nunca me abordaram.

Gazeta – Aquela vez que um PM levou uma pedrada na frente da sua casa, você estava lá?

Nirinho – Não tava. E não levei tiro, como disseram que levei naquele dia.

Gazeta – Uma senhora morreu por conta de uma crise nervosa depois de um dos ataques em Boa Vista.

Nirinho – Não fomos nós. Eu não tava junto. Tem um monte de ladrão roubando aí, mas não sei quem é.

Gazeta – E como vocês três se juntaram?
(Risos dos três)
Gazeta — Nilsinho, por que fugir depois de dez anos preso?

Nilsinho — Imagina, 33 anos de pena, já estava há dez anos no fechado e todos os pedidos pra aliviar foram negados, mesmo não tendo uma falta grave na cadeia. Chegou o fim do ano e não me deram nenhum benefício. Tava na hora de pegar um ar. E teve vários assaltos aí, lá em Venâncio Aires, que disseram que fui eu, mas não é verdade. No assalto que me condenou eu não tava junto. O cara que fez até já morreu e nem parecido comigo era. Ele não foi acusado, só eu. O pessoal fala demais. Eu nem fico em Venâncio, não tenho nada a ver com os assaltos que aconteceram lá.

Gazeta — Mas em Santa Cruz o seu rosto foi flagrado pela câmera da lotérica assaltada no shopping. Você aproveitou que a polícia estava atrás dos seus parceiros depois do resgate do preso e aproveitou para assaltar?

Nilsinho — Eu não tenho nada a ver com isso aí. Nem sabia de resgate nenhum. Tem dez quadrilhas assaltando por aí.

Gazeta — Por quanto tempo ainda seguiriam com essa onda de assaltos?

Nilsinho — Eu já estava pensando em me entregar. A coisa ficou demais (risos dos três). Mas a polícia é inteligente. Senão, não teria chegado aqui nesse fim de mundo.

Quadrilha planejava assaltos grandes

O delegado Luciano Menezes, titular da Defrec e responsável pela operação que culminou na captura dos acusados, não sabe precisar quantos ataques foram promovidos pelo grupo, pois admite a ação de outras quadrilhas em ações pela região. “Mas sabemos com certeza que este grupo roubou mais de 20 armas desde o fim do ano, foram vários ataques no interior. Sabemos também que eles participaram do ousado resgate de um preso no Centro de Santa Cruz e dos ataques à lotérica e ao supermercado na semana passada, e que já se preparavam para um assalto que renderia cerca de R$ 200 mil. Esta ação conseguimos evitar”, comemora Menezes, que dividiu a operação com os delegados Ana Luísa Aita Pippi, Marcelo Chiara Teixeira, Márcio Niederauer Nunes e Felipe Staub Cano.
Ele explica que as delegacias de Santa Cruz, Rio Pardo, Venâncio Aires, Vera Cruz, Vale do Sol e Candelária estavam empenhadas em acabar com o bando. Durante a semana, o chefe da 16ª Delegacia de Polícia Regional, Julci Severo, manifestou preocupação com a sequência de ataques. “Está amadurecendo uma tragédia”, declarou, referindo-se ao temor de que a possível reação de uma vítima abrisse caminho para um latrocínio.
Agora, com os mentores dos principais roubos presos, a tendência é de que outros criminosos recuem da intenção de dar prosseguimento à onda de assaltos. “As prisões dos cabeças do grupo eram uma questão de tempo. Estávamos no rastro deles”, diz Menezes. Segundo ele, a polícia apurou que os acusados estavam criando ramificações e, com o sucesso dos crimes no interior do Vale do Rio Pardo, arquitetando investidas de grande porte. “Eles estavam se aproximando de grupos do Vale do Sinos e de Porto Alegre. Conseguimos acabar com uma quadrilha que ficaria maior e daria mais problemas”, afirma.
As investigações da Polícia Civil apontam que, após conviverem no Presídio Regional, Nirinho e Éderson Manuel Ribeiro, o Edinho, de 32 anos, estariam articulando um assalto que poderia render até R$ 1 milhão. O crime seria no Vale do Sinos, região de Edinho, mas sem detalhes da estratégia. “Foi por isso que o Nirinho providenciou o resgate do comparsa enquanto ele era levado ao dentista. Este grupo que atingimos agora já estava se articulando com criminosos bem mais perigosos e violentos.”
A suspeita, que ainda é apurada pela Defrec, é de que as armas roubadas em residências na região eram em parte vendidas para sustentar o grupo e o restante enviado a ramificações do bando no Sinos e Região Metropolitana. O mesmo acontecia com o dinheiro. Antes do trio que representava o cerne do bando, já haviam sido presos outros dois acusados de participação no esquema: Paulo Ricardo Domingos dos Santos, o Leco, e Rodrigo José Kipper. (Colaborou Igor Müller.)

Quem é

Estupro, roubo a diversos estabelecimentos comerciais e a residências, pelo menos três tentativas de homicídio, lesão corporal, porte de entorpecentes, porte ilegal de arma e desacato a autoridades são alguns dos crimes que constam na extensa ficha de Nirinho, o líder da quadrilha. Preso desde 2007, o fugitivo teria que cumprir ainda mais 30 anos de prisão somente devido aos crimes que já foram julgados. Antes de fugir, ele estava na Galeria C do Regional. Segundo a penitenciária de Santa Cruz, Alexandre de Oliveira, que tem um filho de 8 anos, pertence a uma família de criminosos. Um tio, um cunhado, a companheira e a sogra estão presos ou tiveram passagens pelo presídio. Desta vez, será transferido para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Já Nilsinho e Martinazzo foram levados ao Presídio Regional de Santa Cruz.

COMO O BANDO AGIA

Nirinho era o líder da quadrilha e tinha a seu lado Martinazzo e Nilsinho, um criminoso experiente. Os três arregimentavam outros bandidos que conheciam as regiões onde seriam promovidos os assaltos.

O bando atuava em grupos de seis a dez integrantes, todos fortemente armados, impossibilitando qualquer reação das vítimas. Em alguns ataques, cada bandido chegava a carregar uma espingarda em uma mão e um revólver ou pistola em outra.

Todas os roubos pareciam meticulosamente arquitetados e direcionados a residências onde sabiam que havia armas e grandes quantias em dinheiro. O objetivo era capitalizar e fortalecer a quadrilha para um delito maior.

Com exceção de um ataque no Centro de Santa Cruz, onde só foram roubadas armas, todos os outros em residências aconteceram no interior. No entanto, alguns assaltos atribuídos a integrantes do grupo ocorreram em estabelecimentos comerciais em zona urbana.

A mobilidade era a principal característica do grupo e o que mais dificultou o trabalho da polícia. Sem paradeiro fixo, trocavam de esconderijo várias vezes por mês. Na última vez, porém, a estratégia foi descoberta pela polícia antes da próxima troca, a partir de investigações.

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