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Emanuel Bomfim/AE
É até esperado que biografias precoces já cheguem com data de validade vencida. No caso de Adele, assinada pelo jornalista especializado em celebridades Chas Newkey-Burden, a pressa em retratar a curta trajetória da cantora número 1 do momento não permitiu investigar um dos fatos mais relevantes na vida da britânica: a saúde de sua voz. É sabido, e amplamente noticiado, que a jovem artista de 23 anos passou por uma cirurgia na garganta por conta de um pólipo benigno nas cordas vocais. Ela cancelou turnê, sumiu do mapa – até reaparecer no Grammy –, virou especulação de jornais sensacionalistas. Até mais magra ficou.
Ora, a possibilidade da perda ou comprometimento de seu principal instrumento de trabalho não deveria ser um tema obrigatório num livro desse porte? Aparentemente sim, mas não está lá. Há, no máximo, o princípio do problema (uma laringite) e a possível causa do mal: a combinação de cigarro e bebida alcoólica. Adele, diz a obra, é fã de vinho tinto.
“O risco real dos problemas com sua saúde tem sido muito exagerado”, pondera o autor do livro em entrevista à reportagem. “O que é seguro dizer é que ela ficou extremamente assustada com a situação, passou a ver o mundo de outra maneira”, completa ele. Chas, que já escreveu as biografias de Amy Winehouse, Michael Jackson e Paris Hilton, poupa qualquer análise mais profunda sobre a cena pop atual. Como numa ficção, Adele é a protagonista quase única, tratada como uma verdadeira heroína. “Eu queria escrever sobre ela porque sou fascinado por pessoas realmente talentosas – e não há no momento cantores mais talentosos do que Adele. Além disso, fiquei interessado pelo fato de que ela é uma pessoa feliz, mesmo que suas canções sejam tristes.”
DESAMORES — De fato, a Adele que conhecemos no livro parece formidável. Tem senso de humor, é companheira, apegada à família e amigos, além de não ligar para a fama. Até com sua aparência rechonchuda ela é bem resolvida. É como se o principal trunfo dessa história fosse o rompimento da lógica que costuma cultuar estrelas pop de corpo esbelto e produção esfuziante, da turma de Lady Gaga, Rihanna, Beyoncé e Katy Perry. O marketing associado à londrina é infalível: uma obra que é autêntica e autobiográfica. Curioso é perceber como alguns de seus principais ídolos sejam da seara, digamos, mais “comercial”, como as Spice Girls.
Em poucos momentos vemos uma Adele disposta a fazer música como um exercício ou até como quem encara uma profissão. Tudo é fruto do turbilhão de sentimentos emergidos a partir de desencontros amorosos. Ô moça mais mal-amada! Cada rompimento, cada dor de amor, gerava um punhado de canções inspiradas. Seria, então, capaz de sobreviver musicalmente sem vivenciar o fim de mais uma paixão avassaladora?
“Eu acho que ela acredita nisso”, argumenta o escritor inglês. “Mas, pessoalmente, vejo que Adele é capaz de escrever em qualquer situação”, defende. Mesmo que o aspecto passional pareça prevalecer, a biografia dedica um capítulo – aliás, o melhor deles – ao lado menos intuitivo da produção da cantora: sua formação na Brit School. Fundada no começo dos anos 1990, a escola pública se especializou em moldar jovens talentos (de 14 a 19 anos) para o mundo das artes, em especial a música. A lista de celebridades que passou por lá é generosa e inclui nomes como Amy Winehouse, Leona Lewis, Katie Melua, Jessie J. e Kate Nash.
> Trechos
“Adele elogiou Amy Winehouse e o fato de ela ter liderado uma nova leva de cantoras da instituição de Croydon... Isso era o ‘poder feminino’ em ação. ‘Acredito que Amy abriu o caminho para mim e para Duffy. Antes, apenas uma menina por ano aparecia na indústria, mas, agora, seis ou sete novas surgiram nos últimos anos: Amy, Duffy, Lily e Kate.”
“Ela explica que sempre manteve a questão da aparência em segundo plano... Adele venceu como uma mulher que gosta de se divertir e que só se lembraria desse assunto se ele atrapalhasse a sua alegria. ‘Minhas amigas e eu comemos um prato cheio de macarrão se estivermos com fome... Não nos importamos. Os meus amigos gays costumam se preocupar mais com peso’.”