Familiares, amigos e colegas de Renato Camargo, de Lori Ella Dumke e do vice-prefeito de Agudo, Hilberto Boeck, chegaram ao fim da tarde de ontem divididos entre dois sentimentos. Por um lado, viram acabar, diante da localização dos três corpos, as últimas esperanças em um milagre, em rever ainda vivos os desaparecidos na queda da ponte sobre o Rio Jacuí, ocorrida na manhã de terça-feira passada. Por outro, se libertaram da angústia de não ter como se despedir e dar um enterro digno aos entes queridos.
O primeiro corpo a ser encontrado ontem foi o de Renato, 42 anos, morador de Restinga Seca e funcionário de um engenho. Na hora do desabamento, ele estava na ponte com uma câmera fotográfica e, segundo parentes, pretendia capturar imagens da correnteza do Rio Jacuí para mostrar à filha de 16 anos. De acordo com o comandante do Grupo de Busca e Salvamento dos Bombeiros, major Jarbas Ávila, o cadáver de Renato estava em um arrozal, a 600 metros da RSC–287.
Os outros dois corpos foram localizados de forma quase simultânea, no início da tarde. O do vice-prefeito estava preso a galhos de árvores, parcialmente submerso, numa faixa de terra entre o rio e um arrozal alagado, a 200 metros da ponte. “Na quarta-feira passamos de barco umas 50 vezes neste local, sem ter visto nada. Agora a água está começando a baixar e expôs o corpo”, comentou o major Ávila.
Hilberto Boeck, 55 anos, foi encontrado por voluntários que estavam em um barco. “Quando encostei a embarcação no local, logo o reconheci. Pelo menos agora podemos tranquilizar sua família, que poderá dar o último adeus”, comentou o militar aposentado Darlan Schiefelbein.
O prefeito de Agudo, Ari Anunciação, correu pela taipa para um reconhecimento oficial. Ao voltar ao asfalto, falou à imprensa muito abalado. “Nosso vice-prefeito está morto. Não há dúvidas de que é ele (Boeck). Ele ainda estava até com seu celular e com a chave da sua caminhoneta”, disse. O prefeito de Paraíso do Sul, Roberto Machado, acompanhou Anunciação. “Hilberto era amigo de todos nós e um lutador em prol da comunidade. Ao menos terminou o pior, a agonia de não saber onde ele poderia estar”, avaliou Machado.
O corpo de Boeck está sendo velado na Câmara de Vereadores e o enterro está previsto para as 9 horas de hoje, na localidade de Porto Alves. Foi decretado luto oficial de três dias em Agudo. O vice-prefeito deixa esposa e dois filhos. No momento em que a ponte veio abaixo, ele batia fotografias da cheia, a serem anexadas no decreto de situação de emergência no município.
LORI
Ao mesmo tempo em que as equipes removiam o corpo de Boeck dos galhos, moradores de uma propriedade rural da divisa entre Agudo e Restinga Seca comunicaram ter encontrado um corpo dentro de um mato alagado. Os bombeiros desceram oito quilômetros rio abaixo até chegar ao local. A vítima era Lori Dumke, 56 anos.
No momento em que a ponte desabou, Lori observava a enchente na companhia do marido, Ildo Dumke, 58, da filha Denizi Marioni Dumke, 31, e do namorado da filha, Nelo Jair dos Santos, o Nelinho, 29. Ildo conseguiu se salvar e o casal de namorados segue desaparecido.
AS OUTRAS VÍTIMAS
No fim da tarde de quarta-feira, as equipes de busca que atuam em Agudo encontraram no Rio Jacuí, acima do ponto onde a ponte caiu, o corpo de Cristian Carlos Plate, 16 anos, desaparecido desde domingo. Ele morreu quando tentava salvar a namorada, Terezinha Engel, 16, levada pela correnteza durante um banho no Jacuí. A garota segue desaparecida.
Também na tarde de quarta-feira foram encontrados dois afogados em arroios de Barros Cassal. Jair Dias da Rosa, 25 anos, estava desaparecido desde a noite de domingo, quando foi levado pela correnteza ao tentar atravessar um córrego, em Três Léguas. Já Adão Vitório dos Santos, 71, se afogou na manhã de quarta, quando tentava cruzar a água a cavalo, na localidade de Boa Vista.