Ontem foi mais um dia de falta de água para moradores de todas as regiões da área urbana de Santa Cruz do Sul. A situação, que tem se repetido pelo menos desde o início da semana passada, tirou a paciência do vice-prefeito Luiz Augusto Campis (PT). “Não se está mais aceitando o que a Corsan nos coloca”, afirmou pela manhã, confirmando que o Executivo já pôs um fim às esperanças de renovação do contrato. Conforme ele, o serviço oferecido pela companhia durante os seus 40 anos no município deixou a desejar.
O vice-prefeito lembrou que o problema envolvendo falta de água é antigo. “No ano passado, já tinha ocorrido isso.” Também ressaltou que a comunidade não pode ser culpada pelo aumento no consumo. “Vão querer que a população não use água?”, questionou. Conforme Campis, o Plano Municipal de Saneamento determinará regras e a empresa vencedora terá de cumpri-las, inclusive prevendo o tempo de um possível desabastecimento.
Campis disse ainda que a arrecadação da Corsan, que gira em torno de R$ 2 milhões mensais, não condiz com o serviço prestado. “Agora vamos projetar a demanda pelos próximos 20 anos e a sociedade terá participação decisiva”, garantiu. Acrescentou ainda que o plano foi contestado, mas que agora os santa-cruzenses entendem a importância de realizar uma licitação para escolher a concessionária que manterá o sistema de agora em diante.
O diretor de Operações da Corsan, Paulo Ricardo de Medeiros, garantiu ontem que a estatal está sendo injustiçada. “Estamos nos empenhando e fazendo várias obras.” Medeiros recorda que R$ 35 milhões – R$ 25 milhões para água e R$ 10 milhões para esgoto – serão aplicados, mas terão de ser devolvidos à União, caso o contrato não seja renovado.
Ele ainda acredita em uma rediscussão do assunto. “Querem mais investimentos? Que nos digam.” Segundo o diretor, dois reservatórios – um de 500 metros cúbicos na Avenida Léo Kraether e outro de 250 no Renascença – estão sendo construídos. O custo total é de R$ 1,2 milhão. Além disso, 13 quilômetros de rede serão substituídos na área central, com investimento de R$ 800 mil.
ENVELOPES
Será conhecida hoje a empresa responsável pela elaboração do Plano Municipal de Saneamento Básico. O estudo é uma exigência do Estatuto das Cidades e marca o primeiro passo do governo para a licitação dos serviços, prevista para acontecer ainda este ano. O governo agilizou a finalização do edital, que já foi lançado e prevê a apresentação das propostas até as 11 horas desta quarta-feira. A abertura dos envelopes está prevista para as 14 horas na Divisão de Licitações da Prefeitura.
POR TODOS OS LADOS DA CIDADE, A MESMA RECLAMAÇÃO
O acúmulo de roupas sujas evidencia a falta de água na residência de Maria Lourdes da Silva, 48 anos. Junto com o marido, os três filhos e os dois netos, ela teve de enfrentar mais um dia de desabastecimento no Bairro Imigrante. Assim como a dona de casa, moradores de várias regiões, tanto da parte baixa quanto da alta de Santa Cruz do Sul, foram atingidos ontem.
A falta de energia elétrica na Estação de Tratamento (ETA), no Bairro Pedreira, resultou na interrupção do fornecimento das 5h15 às 8h30, segundo o gerente local da Corsan, Luis Fernando Barbosa. “Ficamos três horas sem produzir e nossos reservatórios secaram.” Até o fim da tarde, a ETA operava com apenas 15% da sua capacidade. “Tinha tudo para ser um dia maravilhoso. Deu esse percalço”, comenta Barbosa.
A previsão era de que o abastecimento fosse normalizado até o fim da noite de ontem ou início da madrugada desta quarta-feira. Conforme o gerente, o fato ocorrido não tem relação com o último fim de semana, quando diversos bairros também ficaram sem água. “Na ocasião, houve um alto consumo por causa do calor, e a demanda acabou sendo maior do que poderíamos atender”, reconhece. Nem mesmo a produção de 35 milhões de litros foi suficiente para garantir o fornecimento à população.
Dentre as áreas afetadas nessa terça-feira estavam ainda Faxinal, Santuário, Higienópolis, Verena, Universitário, Santo Inácio, Ohland, Margarida/Aurora, Bom Fim e Centro. De acordo com Barbosa, a companhia estuda adquirir ou alugar um gerador de energia para evitar um novo desabastecimento. “Estamos vendo essa possibilidade, mas se trata de um custo muito elevado.”
O gerente fez questão de ressaltar que não há nenhum tipo de boicote pelo fato de a Prefeitura não ter aceitado a renovação do contrato – encerrado em dezembro – com a estatal. “Somos homens públicos e comandamos 60 funcionários. Temos caráter, jamais faríamos isso. Nosso compromisso é com a comunidade. Nunca cogitamos qualquer hipótese dessa. Agora o dia que tiver que largar, vamos largar”, frisa.
PROBLEMA TÉCNICO
O superintendente regional da AES Sul, Carlos Alberto Rocha, afirma que 1.932 clientes ficaram sem energia elétrica em decorrência de um problema técnico. Por volta das 4 horas de ontem, a CEEE havia restabelecido o sistema na subestação do Bairro Arroio Grande. “A partir disso, mobilizamos equipes para fazer a configuração da rede. Numa dessas manobras, o condutor de um dos alimentadores rompeu”, explica. Rocha assegura ainda que a primeira ligação para a concessionária foi registrada às 6h16 e o conserto demorou duas horas e 34 minutos.