O primeiro balanço do Censo 2010 do IBGE comprova: a população brasileira está envelhecendo. O País tinha, em 2008, 21 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Estima-se que em 2020 a população com mais de 60 anos no País deva chegar a 30 milhões de pessoas (13% do total).
A sociedade de um modo geral, porém, não reserva grandes expectativas para a chamada terceira idade. Prefere fechar os olhos para aqueles de memória debilitada e passos nem mais tão firmes, sem lembrar que esses mesmos já se valeram de braços fortes para construir a própria sociedade. Há, no entanto, quem ande na contramão desta história, como a Associação de Auxílio aos Necessitados (Asan), que oferece abrigo para idosos carentes de Santa Cruz do Sul. Não é fácil.
Por isso, toda ajuda é sempre bem-vinda por lá. A mais recente veio em forma da doação de 480 quilos de alimentos e de 15 pacotões de fraldas geriátricas. As cestas básicas foram repassadas pelos calouros e acadêmicos do segundo semestre da Medicina da Unisc.
Já as fraldas foram entregues pela turma do Digestivo, programa da Rádio Gazeta FM, que obteve dinheiro para compra do produto através do leilão de uma camiseta oficial do Internacional autografada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 29 de julho, quando esteve em Santa Cruz a convite do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Prefeitura.
Mas o presente maior para quem faz da sede da Asan sua morada foi mesmo a visita inesperada naquele final de tarde do último dia 23. Alguns chegaram atrasados. Outros foram embora mais cedo. Ao todo, uma hora e meia de um encontro entre histórias de vida e vontade de fazer a diferença. Da sabedoria não valorizada com a juventude em busca de conhecimento. Velho e novo como iguais. Como deveria ser. Sempre.
Meta é garantir qualidade de vida e dignidade
Deixados de lado pela família, os internos têm nas conversas com os funcionários do asilo e nos encontros com jovens acadêmicos a lembrança dos dias em que eram importantes para filhos, netos e amigos. Não à toa. Uma das preocupações, segundo a secretária executiva da Asan, Miriam Etges, é justamente fazer com que seus internos tenham qualidade de vida e sejam tratados com dignidade.
Daí também a parceria com a Unisc, que resulta em projetos de extensão e iniciativas como a do repasse dos alimentos arrecadados no Trote Solidário da Medicina. Essa ação, em específico, tem também a mão da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs) que busca disseminar atos de generosidade pelas graduações do Estado.
A semente cresce com força no peito dos acadêmicos da Unisc. “Uma pessoa não mata a fome de várias. Assim como um médico sozinho não salva vidas”, resume Bruno Kras Friedrisch, 20 anos, e um entusiasmo só.
Aliás, a maioria dos acadêmicos que foram até o asilo nem eram calouros como Bruno. E sim alunos do segundo semestre que não teriam obrigação de estar lá. “Quando entrei na faculdade, também ajudamos o pessoal daqui. Fiquei feliz em reencontrar algumas pessoas e ver elas bem”, diz Carolina Weis, 21 anos.
Mas a alegria poderia ser ainda maior. A ideia inicial era arrecadar dinheiro para a compra de um ar condicionado para o refeitório do asilo, que vira uma geladeira no inverno e um forno no verão. Só que depois de ir a pé da Unisc até o Centro, pedindo doações em nome da Asan para quem encontravam pelo caminho, sem conseguir juntar o valor necessário, os acadêmicos decidiram mudar o foco. Apostaram na bondade dos clientes dos supermercados locais. Tiveram mais sorte.
Para Carolina, porém, o problema é ainda mais complexo. Passa pela implantação de efetivas políticas públicas para a terceira idade. “Algo nos moldes dos programas de saúde da mulher.”
“Tem parente que não aparece nem para os atos fúnebres”
Sediada ao número 491 da Padre Luiz Muller, a Asan abriga 78 idosos. Um deles é Pedro Claudionor dos Santos, que conheceu Argentina, Uruguai e Paraguai e cada canto do Brasil na boleia de seu caminhão. Estacionou no asilo há três anos. Mas não parou de viver. De conversa fácil, olhos azuis e passadas ainda firmes, o sujeito de 78 anos é o mais animado dos internos. Fosse político, teria o voto da maioria por lá. Estende a mão a todos. Sabe um pouco de cada. E diz ter o segredo para envelhecer sem esmorecer. “Não pensar besteira. Debilita o cidadão”, revela seu Pedro, enquanto ajeita a cadeira sob a sombra de uma árvore.
Já acomodado, conta que o maior drama vivido pelos colegas é o abandono de quem mais deveria se preocupar com eles: os familiares. Visitas são raras. O que gera depressão e tristeza. “Ontem (último dia 22), um companheiro chorou bastante por saudade dos filhos. Até o mais durão não resiste.”
Deixados de lado pelo próprio sangue, os internos ainda convivem com o fato de saber que por lá, mais do que em qualquer outro lugar, é comum relações serem rompidas do dia para a noite sem aviso prévio. “Vez que outra a gente vê um colega partindo em um carro de funerária. Tem parente que não aparece nem para os atos fúnebres. É o pior. Mas a vida segue”, diz seu Claudionor com a experiência de quem sabe que a estrada é tortuosa e precisa ser encarada de frente. Independente de como será o fim.
A luta maior da Asan é contra a depressão
Manter a folha salarial em dia é algo que consome boa parte dos recursos da Asan. Afinal, são 23 pessoas no quadro funcional. Mas essa não é a principal preocupação por lá. A luta maior da entidade é contra a depressão que ronda cada dormitório e tem no descaso dos familiares o seu principal aliado.
As mulheres, segundo a secretária executiva, se deixam abalar com maior facilidade. Choram. Falam dos filhos que não aparecem. Da vida que ficou para trás. Já os homens buscam o isolamento. Reprimem sentimentos. O que gera danos ao organismo. “Eles adoecem mais fácil”, testemunha Miriam.
Mas como a visita dos familiares e amigos é algo que foge ao alcance da administração, a saída é investir na prevenção, através de alimentação balanceada (os internos recebem cinco refeições diárias) e de atividades geradoras de prazer. “O ideal seria o acompanhamento de um psicólogo. Mas buscamos parceiros nesta área e não tivemos sorte.”
“Todo empresário deve abraçar a filantropia”
A camiseta do Internacional autografada por Lula virou um quadro que está exposto em uma das paredes da Nakao. O escritório de marketing e comunicação foi quem arrematou a peça histórica no leilão digital promovido pelo programa Digestivo, da Gazeta FM. Antes, porém, a camiseta foi visitar o asilo. O problema maior para a dupla de publicitários Jaqson Patric da Silva e Fábio Eduardo da Silva foi explicar aos internos que a camiseta não estava lá para ser doada. Era um tal de “eu quero”, “sou mulher, mas bem mais colorada do que ele...”
Apesar da “pressão” do pessoal os dois se mostraram realizados com o destino dado pelos R$ 350,00 que pagaram pela peça vermelha. “Todos devem abraçar a filantropia. Participamos pelo fato de a iniciativa ser da Gazeta FM que, assim como a Gazeta Grupo de Comunicações, tem uma preocupação legal com o social”, explica Fábio, que voltou para sua empresa com uma certeza: um gesto simples pode fazer aquela diferença.