DA TERRA E DA GENTE 11/08/2020 14h12

Em tempos de pai-avô

Mas, sem dúvida, há as compensações, de poder vivenciar o papel paterno em idade mais madura junto com o vovozado

Há dia para tudo. Há pouco comemorava-se o Dia dos Avós e agora foi a vez do já tradicional e badalado Dia dos Pais. Mas já aconteceu de eu ser homenageado ao mesmo tempo, e pela mesma pessoa, pelos dois títulos. Foi quando a primeira neta, ainda pequena na creche/escolinha e morando com a mãe na casa dos avós, foi perguntada sobre o nome do pai e não hesitou em responder: “É o vô Benno”.

O habitual cartaz do dia, feito por ela na ocasião, não podia deixar de exaltar essa citação e assim ainda hoje ele está afixado em parede da casa, com as primeiras palavras em evidência: “Parabéns, pai-vô!”. Pois essa é uma realidade que hoje se tornou presente com mais frequência, em que os pais que trabalham ou estão separados acabam sendo substituídos mais pelos avós. Foi o caso da neta, cujo pai mora em outro estado e, por mais que se esforce em fazer seu papel a distância, a referência paternal mais próxima acaba prevalecendo, ainda mais na infância.

O que eu não pensava era de que, depois de educar três filhas e passar pelas tenebrosas experiências paternas da sua adolescência e todo seu processo educativo, tivesse que enfrentar a mesma situação em tempos de avô, que projetava mais tranquilos e serenos, com menos preocupações filiais. Porém, a neta cresceu, permaneceu junto com os avós e já está nos sempre complicados e turbulentos períodos de adolescente, quando a autoridade de pai precisa estar muito próxima, e adivinha para quem sobrou: Para o “paivô”, que procura fazer o que está ao seu alcance.

Mas, sem dúvida, há as compensações, de poder vivenciar o papel paterno em idade mais madura junto com o vovozado, que a esta altura já é exercido junto a mais três netos ainda pequenos (outra menina e dois meninos), um dos quais também passou a conviver com os avós agora, quando seus pais que trabalham e agora o fazem do lar (para não dizer o inglesado home-office, embora o termo remeta à moeda americana) estão sem escolinha para o filho e precisam de um local onde abrigá-lo. Onde o encontraram? Na ampla e acolhedora casa dos pais e avós.

E assim está o avô junto ao netinho, não por acaso com o mesmo nome (Bernardo) e, dizem, com o mesmo jeito de ser, convivendo no dia a dia, desta vez na presença de ambos os pais, dando assim menos trabalho, porém não escapando de alguns confrontos de dois gênios fortes assemelhados, onde o mais velho não gosta de (e nem deve) ver perdida a autoridade e o respeito. Faz lembrar do pai já há tempo falecido (olha aí de novo o Carl, de Carl & Ciss, meu último livro, disponível na Casa de Clientes Gazeta e Iluminura), que em outros tempos exercia uma paternidade, embora presente, bem distanciada, além de muito rígida e severa. Daria até para brincar, diante do que vivemos hoje: com seu distanciamento não havia como transmitir qualquer gripe ou vírus. Mas deixou um exemplo a seguir, de que a rigidez e severidade, com limites, não fazem mal a ninguém, mas, pelo contrário, precisam ser mais praticadas em tempos de pouco respeito.

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