Direto da redação 18/05/2019 01h32 Atualizado às 10h51

Romper o círculo

Uma agressão alimenta a outra, numa espiral aparentemente sem fim

Por que a humanidade, ou pelo menos grande parte dela, em épocas críticas, sente uma necessidade obsessiva de ter inimigos? De alimentar conflitos? O italiano Primo Levi conta a seguinte história no livro A trégua, um de seus relatos sobre a experiência de prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz. Ainda nas primeiras páginas, ele recorda suas conversas com Henek, um dos companheiros de infortúnio na rotina do campo, que havia nascido e morado em uma fazenda na Transilvânia, em meio a um bosque junto à fronteira romena. “Caminhava frequentemente com o pai pelo bosque no domingo, ambos com o fuzil. Por que com o fuzil? Para caçar? Sim, também para caçar; mas também para disparar contra os romenos. E por que disparar contra os romenos? Porque são romenos, explicou-me Henek, com simplicidade desarmante. Eles também, de vez em quando, disparavam contra nós.”

Contra o inimigo, olho por olho e nada mais. A lógica de Henek faz lembrar outro livro: o romance Abril despedaçado, de Ismail Kadaré, em que duas famílias travam uma guerra que dura gerações na zona rural da Albânia. Essa violência segue um código rigoroso de conduta, um ritual tradicional que não pode ser desrespeitado. O jovem montanhês Gjorf Berisha tem o dever – essa é a palavra – de assassinar um membro do clã Kryeqyv e provocar a 45ª morte de uma vendeta iniciada há sete décadas, por motivos que ninguém mais recorda. A matança entre as duas famílias é uma imposição do Kanun, código moral que há séculos é transmitido de boca em boca nas montanhas albanesas. A trama de Kadaré acabou sendo adaptada para o sertão brasileiro no belo filme Abril Despedaçado, de Walter Salles (2002). Aqui, os filhos mais velhos de duas famílias nordestinas, de tempos em tempos, enfrentam-se em um duelo de morte para defender suas terras. Tudo cercado de um estranho senso de “dever moral”.

É o círculo terrível da violência: uma agressão alimenta a outra, numa espiral aparentemente sem fim. Mas, por vezes, de forma admirável, alguns conseguem sair do traçado e ver o semelhante de outro modo que não um inimigo odioso. Conta-se que, na Primeira Guerra Mundial, no Natal de 1914, soldados franceses e alemães, em diferentes frentes de batalha, saíram de suas trincheiras desarmados e... confraternizaram. Cantaram, dividiram sua comida, conversaram como bons amigos – quando, apenas um dia antes, haviam travado combates mortais. Parece difícil de acreditar, mas aconteceu – a história inclusive inspirou o filme francês Feliz Natal, de 2005. Por alguns momentos, eles romperam o círculo do ódio. O que sempre traz alguma esperança.