Ricardo Düren 08/11/2020 16h39

O voo da máscara

A crônica mostra que, às vezes, acontecem-nos eventos surreais e difíceis de explicar

O Luis Fernando Verissimo, cronista quase tão bom quanto eu, narra em um de seus textos curiosa história de um sujeito que perdeu a aliança ao trocar um pneu furado. Conta que a aliança escorregou-lhe pelo dedo coberto de óleo do macaco e caiu no chão. Ao tentar apanhá-la, deu um passo à frente e, desastrado, chutou-a. Projetada para longe, a aliança rebateu na roda de um carro que passava e, a seguir, voou na direção de um bueiro. E, diante dos olhos estarrecidos do pobre homem, o anel, símbolo sagrado de sua união com a esposa, foi tragado irremediavelmente para as entranhas do sistema pluvial da cidade.

Restou-lhe, então, grave problema: convencer a esposa da veracidade de um incidente tão inusitado. E concluiu: “Ela jamais acreditaria…” A solução? Ao chegar em casa, relatou à mulher ter perdido a aliança durante uma aventura extraconjugal. Houve briga, choro, crise. Mas, por fim, a esposa o perdoou. Afinal, ele havia “confessado a verdade”.

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Claro que esse texto é de outros tempos. Talvez hoje possa soar machista ou patriarcalista, ao sugerir a imagem de uma esposa dócil e tola, que deixa-se enganar pelo marido e facilmente perdoa-o pela suposta traição. Mas a crônica mostra que, às vezes, acontecem-nos eventos surreais e difíceis de explicar.

Como no dia em que perdi minha máscara contra o coronavírus.

Ocorre que eu havia desenvolvido um sistema que, na ocasião, pareceu-me muito prático e biologicamente eficaz para transportar a máscara no carro: pendurá-la em uma alça do pendrive conectado ao rádio, suspensa a alguns centímetros do painel. Contudo, ao circular com as janelas bem abertas pela BR-471, ali na frente da Havan, um vento oeste que trazia consigo o frescor das águas do Lago Dourado invadiu-me o automóvel, em uma rajada tão forte, mas tão forte, que desprendeu a máscara, arremessando-a para fora em uma fração de segundos.

Pelo retrovisor, ainda pude ver a máscara planando a um metro e meio do asfalto, antes de ser colhida por uma Scania. Não havia o que fazer para salvá-la. E, pior: o que dizer em casa?

A melhor opção, óbvio, é sempre a verdade. Mas a Patrícia ainda me alfineta quando rodamos juntos pelo lugar do acidente:
– Estranho que nunca bate um vento quando passamos por aqui…

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Por sorte, a máscara sacrificada foi a minha, não a da Ágatha. A caçula ficaria chocada se a sua máscara da Covid predileta, cor-de-rosa e adornada com unicórnios, fosse atropelada por uma Scania.

Aliás, a caçula tem dado exemplo quando o assunto é prevenção do novo coronavírus. Não atravessa os portões de casa sem antes colocar a máscara. E não se queixa do desconforto. Não só porque a máscara é fashion, mas porque Ágatha realmente se preocupa com a pandemia.
– Se todos usarmos, isso tudo acabará mais cedo – argumenta, com a sabedoria que é peculiar às crianças.

Sua preocupação é tanta que, se fôssemos ao Litoral, talvez Ágatha usasse a máscara até na praia, lugar onde o coronavírus não chegou. Ou talvez tenha até chegado, mas sem forças suficientes para resistir aos efeitos medicinais atribuídos à maresia. Pelo menos, é a teoria que me ocorreu depois de ver as imagens de tamanha aglomeração à beira-mar no último feriadão.

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Mas também preciso fazer um meaculpa. Tempos atrás, farto de tanto ficar em casa durante os fins de semana, convenci a esposa e a prole a darmos um passeio. Decidimos ir a Rio Pardo, tomar um mate à beira do Jacuí, e optamos por fazê-lo no Balneário Santa Vitória, um ambiente que sempre me agradou. Imaginei que o lugar estaria deserto e seguro, não só em virtude da pandemia, mas também porque fica mais distante da zona urbana, lá do outro lado do rio. E por ter fama de mal-assombrado.

Sim, já ouvi várias histórias de assombrações no Santa Vitória. Conta-se que, ao cair da noite, guarnições de soldados castelhanos, que pereceram tentando invadir a Tranqueira Invicta no século 18, patrulham as trilhas na mata, carregando espadas e mosquetões. Sei de gente que tem até casa no balneário, mas que não pernoita lá de jeito nenhum, por medo dos soldados-fantasmas. Enfim, trata-se de um lugar perfeito para ficar em tempos de pandemia.

Ledo engano. O balneário estava apinhado de gente corajosa, sem medo algum de fantasmas e do coronavírus – ou que teve a mesma ideia que nós. Só fui encontrar uma vaga para o carro ao final de uma estradinha, no meio do mato, e enveredamos por uma trilha para chegar à beira do rio. Ali, enfim, encontramos um ponto isolado para relaxar, sorver algumas cuias e curtir a paisagem.

Mas, ao fim da tarde, tratamos de bater em retirada, expulsos por seres que surgiram da mata. Não, não eram os fantasmas. Eram os mosquitos.

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