Direto da redação 09/11/2017 09h46

A companhia perfeita

Daqui a alguns anos, possivelmente, a indústria tecnológica conseguirá nos oferecer esse tipo de inovação

Até que ponto poderia chegar a nossa inclinação primária de procurar o próprio reflexo em outras pessoas? De achar “semelhantes” na acepção mais radical da palavra – gente parecida em gostos, preferências políticas e estéticas, em humor... e, o mais importante de tudo: sempre correspondendo às nossas melhores expectativas, sempre dispostas a fazer o que gostaríamos que fizessem? Ainda que, dito assim, possa parecer um exagero, é fácil perceber esse comportamento em manifestações, seja nas ruas ou no ambiente virtual, de grupos unidos por sólidas afinidades, nos quais – por mais que, às vezes, fale-se muito em valorizar as diferenças – cada um parece buscar no outro um espelho.

Daqui a alguns anos, possivelmente, a indústria tecnológica conseguirá nos oferecer a tão esperada “companhia perfeita”. À prova de arestas. É o que indica o recente filme Blade Runner – 2049. O protagonista é um androide – meio humano, meio cibernético – chamado K, um caçador de outros androides como ele – mas “rebeldes”, que não se enquadram no sistema – e tem uma vida solitária. A sua única companhia é a linda e prestativa Joi, uma moça que entende K como ninguém e faz de tudo para agradá-lo. Porque foi programada para isso. Joi é um holograma, um irresistível software vendido comercialmente. Milhares podem tê-la em casa – basta pagar.      

Em certo momento do filme, Joi deixa de estar presa ao apartamento de K. É que ele compra um “pacote premium” e, com isso, pode levá-la para a rua num suporte portátil. Todos podem vê-la e interagir com ela. Um luxo. Claro, algum problema de conexão sempre pode acontecer em meio a esses passeios, mas faz parte.

O fato é que, em breve, Joi deverá estar entre nós. O mundo que a inventou está aí, na crescente interação com os meios digitais, que estão sempre se inovando e ampliando. E, qualquer dia desses – como sugeriu o crítico de cultura pop André Forastieri –, talvez não possamos mais chamar criações como essa de softwares, mas de “seres”. A questão é como lidaremos com isso. “O risco mais explícito é você passar a viver em um mundinho virtual que se ajusta completamente aos seus desejos. Em que todas as opiniões batem com a sua, em que tudo se ajusta a você, tudo está ao seu redor somente para servi-lo, todas as suas conexões pensam e agem como você. O que faz do Outro, de quem é diferente, um ser inferior”, analisa Forastieri.

Triunfo do individualismo? É um cenário pessimista, mas, certamente, as coisas não precisam ser assim. O que torna fantasias distópicas como Blade Runner fascinantes é a sua capacidade de nos fazer pensar com mais profundidade no presente.