Direto da redação 13/01/2018 10h28

Para encarar 2018

Para lidar com posições radicalmente opostas sem tentar destruí-las, é necessário argumentar até o fim

Em meio aos prognósticos para este 2018, espero que ele seja menos hostil e turbulento do que está prometendo ser. Pode ser uma esperança vã em ano de eleições para presidente, mas não custa nada tentar. Afinal, do que precisamos para sair da “zona de guerra” em que se transformou o debate político? Em um texto que circulou há pouco tempo na internet, uma escritora chamada Ione Italia, que vive na Argentina, ressaltou algumas “bandeiras” – não partidárias – das quais ela se recusa a abrir mão. 

Em primeiro lugar, a liberdade de expressão. Segundo ela, “é um direito único e indivisível que precisa ser garantido a todos. Isso inclui discursos estúpidos, repulsivos ou ‘de ódio’. Combata discurso com discurso”. Mais fácil dizer do que fazer: quando nos deparamos com afirmações que afrontam nossas convicções profundas – caso, por exemplo, do que diferentes pessoas chamam de “discurso de ódio” –, a tendência é procurar um meio de sufocá-las, impedir que proliferem. A censura é uma das tentações mais irresistíveis da nossa época. Mas justamente porque isto é difícil, lidar com posições radicalmente opostas sem tentar destruí-las, é necessário argumentar até o fim. Ser tolerante até mesmo com a intolerância selvagem – na medida do possível, é claro.  

Ione continua: “Julgue indivíduos analisando as situações caso a caso. Julgue-os por seu caráter e opiniões. Não os julgue baseados em sexo, raça, sexualidade, nacionalidade ou qualquer outra característica involuntária e acidental”. Quer dizer: pouco importa se você é negro, branco, macho, fêmea, gay, coxinha, petralha ou seja lá que outro tipo de generalização redutora. O que vale são pensamentos e ações. Fixar-se na própria “tribo” e demarcar fronteiras o tempo todo nos torna menores. Mais pobres. Menos particularismos, mais abertura. 

“Precisamos das humanidades mais do que nunca. Precisamos de arte, literatura, história. Precisamos de praticantes e críticos de todas as artes, mesmo as não lucrativas. Apoie-os e, se possível, financie-os.” Uma sociedade que só alimenta valores utilitários acaba definhando lentamente. As pessoas precisam de comida, dinheiro, segurança, mas também de beleza – do tipo que só expressões artísticas conseguem proporcionar. 

E há ainda uma outra questão fundamental: defender o Estado laico. “Acredite no que quiser, pratique o que quiser, mas deixe suas crenças fora do governo.” Sim, disso realmente não dá para abrir mão. É, não vai ser fácil, mas tudo bem.