Direto da Redação 24/03/2018 01h19 Atualizado às 11h53

Um pouco de inutilidade

A arte também serve para isso: aproximar, construir pontes, revelar coisas maiores do que aquilo que pode, eventualmente, separar

Pessoas reunidas em um auditório para ouvir e ler poesia. Para quê? Para nada, em princípio. Nenhum valor prático, palpável nisso. Ninguém ganhou dinheiro, pode ter certeza. Mas há coisas que não se pode medir. Nessa sexta-feira, no anfiteatro do Memorial da Unisc, ocorreu a primeira edição do ano dos Encontros com a Poesia. É uma promoção do curso de Letras, do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação em Educação da universidade, que ocorre mensalmente, aberta à participação da comunidade. O encontro dessa noite, organizado em parceria com o grupo Sobre Livros & Leituras – uma “confraria” de apreciadores de literatura que se reúne há mais de dez anos em Santa Cruz –, prestou uma homenagem a Manoel de Barros, um dos mais originais poetas da língua portuguesa. 

Manoel dizia que “a poesia é a virtude do inútil, o inútil só serve pra poesia”. Nascido em Cuiabá, Mato Grosso, em 1916 e falecido em 2014, ele dedicou boa parte de seus 97 anos a produzir literatura a partir de coisas, aparentemente, insignificantes. Sem valor. Porém, na escrita de Manoel, qualquer objeto trivial – até uma pedra – pode se tornar algo mágico. “Uma cadeira pode servir poeticamente pra mil coisas além de sentar”, afirmava. E, assim, “o mundo fica imenso”. Trancado em seu escritório – o “lugar de ser inútil”, como ele mesmo chamava –, Manoel de Barros criou obras como Livro das ignorãças, Livro sobre nada, Menino do mato e muitas outras. Todas fascinantes.

“A importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”, ele ensina. Réguas e fitas métricas não dão conta de medir grandezas assim. E, embora seja difícil falar de encantamento e beleza nestes tempos violentos, com doses diárias de notícias desalentadoras, chega uma hora em que todos precisamos disso. Sempre há aquela hora em que buscamos algo além de “correr atrás da máquina”, além de comprar, vender, sobreviver. Nem que seja apenas a atenção de outro ser humano. E a arte também serve para isso: aproximar, construir pontes, revelar coisas muito maiores do que tudo aquilo que pode, eventualmente, separar. Tudo que separa, que afasta é pequeno. Não tem a menor importância.

Nessa sexta-feira, ao menos por uma hora e meia, pessoas desconhecidas estiveram conectadas pela palavra poética. Estiveram unidas, em um encontro. Por poucos momentos. Mas suficientes para que o mundo “ficasse imenso”. E com um pouco, nem que um pouquinho, mais de beleza.