Direto da redação 20/10/2018 01h07 Atualizado às 11h41

A brincadeira perdeu a graça

Chegamos a um ponto em que a irracionalidade – em todo tipo de assunto – se tornou muito perigosa. E enfrentá-la não é mais questão de escolha

Não há fatos, apenas interpretações. Tudo é relativo. Tudo é subjetivo. A verdade é só uma questão de ponto de vista. Quantas vezes você já não leu ou ouviu isso? O discurso relativista banalizado, o clichê preferido da chamada “pós-modernidade”, repetido à exaustão. Bem, parece que agora chegamos ao apogeu desse tipo de vale-tudo discursivo: a explosão incontrolável das “fake news”, as notícias falsas – muitas completamente absurdas – que ameaçam corroer a política e o tecido social. Um grave problema que se pretende, agora, combater com... a verdade! Como assim? Mas não existem somente discursos particulares? Pois é, um dia todas as brincadeiras perdem a graça. Inclusive as intelectuais.

Se levarmos a sério o argumento relativista, não podemos, por exemplo, afirmar que teorias religiosas sobre a origem da humanidade são menos críveis do que a biologia evolucionista, pois todas, afinal, são discursos específicos. Em outras palavras: acredite no que achar melhor. A ideia da “verdade” como algo que pode ser determinado por critérios racionais, pensamento rigoroso, vem sendo minada há muito tempo, e não faltaram avisos do que poderia acontecer. Em 1999, o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov (falecido no ano passado), no livro intitulado O homem desenraizado, escreveu: “É preciso estar inteiramente isolado da vida pública e jamais sair de si para acreditar que não existe nenhuma diferença entre fatos e interpretações, razão e crença, justiça e interesses.” De acordo com esse princípio, observa Todorov, “o argumento da autoridade pesa cada vez mais (já que não há mais diferença entre o direito e a força, melhor estar do lado dos mais fortes)”.

Também passa a imperar o pensamento mágico – a facilidade de acreditar em qualquer teoria estapafúrdia que apareça e divulgá-la pelo WhatsApp, e ainda receber “likes” e comentários fascinados. Nada mais precisa ser comprovado com rigor. Ex-crítica literária do New York Times, Michiko Kakutani lançou este ano o livro A morte da verdade. A partir da eleição de Donald Trump (cuja campanha se apoiou em muitas notícias falsas), ela analisa como a direita norte-americana explorou uma formulação surgida na esquerda – de que a “verdade” é mera questão de perspectiva e de agenda política – e, assim, criou o seu próprio “ecossistema informativo”.     

 A própria afirmação, extremamente banalizada, de que “tudo é subjetivo” é esquisita: ela mesma precisaria ser objetiva para ser reconhecida como válida e, nesse caso, anularia a si mesma. O fato é que chegamos a um ponto em que a irracionalidade – em todo tipo de assunto – se tornou muito perigosa, pois está corroendo a esfera pública. E enfrentá-la não é mais uma questão de escolha.