Fora de pauta 19/01/2020 14h07

Os poros no rosto

Como se o interior de uma pessoa fosse tão básico como o de uma melancia: polpa vermelha com sementes pretas. Ou nem isso.

“Uma cidade, um campo, de longe são uma cidade e um campo, mas à medida que a gente se aproxima, são casas, árvores, telhas, folhas, mato, formigas, pernas de formigas, ao infinito. Tudo isso fica abrangido sob o nome de campo.” Eis uma das reflexões do filósofo francês Blaise Pascal em seu clássico livro Pensamentos, publicado em 1670. Ela evoca nossa tendência, tão humana, de enxergar o mundo em blocos, sempre tentando agrupar em conjuntos homogêneos – e, portanto, fáceis de assimilar e entender – aquilo que é, fundamentalmente, singular e diferenciado, único.

Pois os seres humanos não são semelhantes a ovelhas. E mesmo as ovelhas, se as observamos com atenção, não são idênticas entre si. Mas as generalizações têm a força da simplicidade, o apelo do menor esforço, então fica difícil resistir a elas. É melhor, mais fácil classificar os indivíduos em algum grupo, coletividade, a partir do seu lugar de origem, cor da pele, credo religioso, time de futebol, partido político, seja lá o que for. Como se o interior de uma pessoa fosse tão básico como o de uma melancia: polpa vermelha com sementes pretas. Ou nem isso. O fato é que estamos sempre alguns passos perto demais de nós mesmos e alguns passos longe demais dos outros; por isso temos facilidade para julgar os demais em bloco, de forma grosseira, enquanto nossa autoavaliação é geralmente pautada por detalhes.

Então, cada vez mais habituado a um olhar genérico, chega um momento em que você nem percebe mais as distinções. E, como uma personagem do romance distópico Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, passa a enxergar apenas… manchas. Ou blocos indistintos. “Uma mancha cor-de-rosa? É um roseiral. Manchas brancas são casas. Manchas marrons são vacas.” Fahrenheit 451, você sabe, é aquela história de ficção científica sobre uma sociedade na qual os bombeiros provocam incêndios ao invés de combatê-los. O trabalho deles, mais precisamente, é queimar livros – qualquer um. Pois livros são considerados fontes de infelicidade e desequilíbrio emocional e social; é preciso bani-los. Os cidadãos de bem dedicam seus momentos de lazer a programas de tevê, aos quais assistem em telas imensas nas paredes de suas casas. Gigantescas manchas.

O protagonista é um bombeiro em crise de identidade, que passa a questionar esse meio onde vive. “Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida”, diz a ele um dos personagens. É isso. Como microscópios de alta precisão, eles – os livros que valem a pena – revelam detalhes que não havíamos sequer imaginado, irregularidades, saliências ou frestas, fendas na muralha do mesmo – por onde sempre pode entrar uma nova luz. E assim são fonte de incômodos aos detentores do poder, pela constante novidade e alteridade que oferecem.

O desafio é enxergar o mundo além de modelos generalizantes, empobrecedores, que costumam abrir a porta para manifestações violentas – afinal, é sempre mais fácil tratar como “coisa” alguém em quem não reconhecemos nenhuma individualidade. Dedicar-se, portanto, a observar e reconhecer o que é singular em cada coisa: eis um exercício mental interessante e válido para que possamos seguir em frente, com o mínimo possível de tropeços e quedas, neste 2020.