Direto da redação 03/08/2017 09h31 Atualizado às 09h44

Os bichos e nós

Levantar-se contra os casos de sofrimento animal é valorizar as pessoas, por demonstrar que condenamos um tipo de violência

As pessoas envolvidas com a chamada causa animal – mas não apenas elas – receberam com tristeza a notícia da morte do cavalo Amigo, na segunda-feira. Ele havia sido encontrado em péssimas condições no dia 20 de julho no Bairro Santo Antônio, em Santa Cruz do Sul, vítima de abandono. Como a Gazeta noticiou, não faltaram esforços para salvá-lo, o que não foi possível.

Maus-tratos contra animais não são novidade. Se mais pessoas ficam sabendo desses casos, isso se explica pela época que vivemos, de maior circulação das informações. É mais um exemplo de uma área muito influenciada pela forma como hoje nos comunicamos. 

O que não mudou, talvez à exceção do quanto repercute, é a controvérsia sobre o destaque que tais fatos ganham, pois não são poucos os que acham que situações envolvendo animais são menos relevantes. Como todo o esforço da sociedade é para dar garantias a seres humanos, por que se importar tanto com aqueles cujos direitos são bem mais limitados? As pessoas deveriam ser prioridade.  

Acredito que quando vemos animais sendo maltratados – e hoje, com smartphones e mídias sociais, é bem mais fácil que isso seja visto– nossa indignação não gira ao redor do objeto das agressões ou do abandono. Penso que aquilo que nos mobiliza é muito mais a violência empregada pelo “humano”. O que causaria surpresa e revolta não seria exatamente a situação do animal irracional e sim o comportamento do ser humano racional, o quanto de violência alguém é capaz de empregar. O fato de o objeto dos maus-tratos ser um animal seria apenas um ingrediente a mais, porque imaginamos se tratar de um ser indefeso. 

Quem se dispõe a ser agressivo com um cachorro ou um cavalo não demonstraria uma disposição à violência que também poderia se voltar contra pessoas? Ele não poderia perder o controle quando enfrentasse um desentendimento qualquer em suas relações sociais ou familiares? Não seriam pessoas assim potenciais autores de casos de violência doméstica? Teriam elas condições de manterem relacionamentos saudáveis com cônjuges e filhos? No passado, ver crianças maltratando animais domésticos era encarado como algo quase banal para a idade, nada que preocupasse. Hoje, ao contrário, aconselha-se a pais de crianças com esse comportamento que fiquem atentos: as agressões podem ser um sinal precoce de futuros adultos com propensão à violência. 

Levantar-se contra os casos de sofrimento animal é uma das formas de valorizar as pessoas, por demonstrar que condenamos um tipo de violência entre tantas que existem. Talvez o sofrimento não tenha classificações, não possa ser qualificado levando em conta o ser que sofre. Talvez haja uma quantidade fixa de dor no mundo, dividida entre todos os que vivem – racionais e irracionais –, e nossa prioridade deveria ser tentar reduzi-la. Isso colocaria todos nós no mesmo barco.