Direto da redação 27/11/2017 09h35

Valorizar a vida

Se nem tudo pode ser controlado, podemos pelo menos influenciar em alguma medida as consequências daquilo que nos acomete

Não é preciso ser do ramo para intuir quais notícias atraem mais a atenção de leitores e ouvintes. Acidentes de trânsito e crimes violentos, ou aqueles que vitimam crianças, lideram a “preferência”, ficando um pouco atrás dos escândalos políticos e de crimes menores mas que tenham envolvimento de pessoas conhecidas. As teses para explicar o fenômeno são variadas: gosto pela morbidez, alegria por ver a tragédia alheia, índole violenta, baixa cultura que levaria a não ter interesses maiores, preenchendo com coisas que não pedem muita interpretação... Tirando aquele percentual de pessoas que relaciona crimes a questões sociais, vindo daí seu interesse, talvez no restante se trate apenas de perplexidade com o grande número de casos em que pessoas morrem ou ficam gravemente feridas.

Se esta última explicação soa melhor, podemos pensar: no geral, as pessoas estão dando o devido valor a suas vidas? Paramos para refletir, mesmo que de vez em quando, sobre quanto vale uma vida humana, ou mesmo a nossa? Você já se pegou analisando o quanto atribui de relevância à sua existência? 

Como curiosidade, há pesquisas que apontam que um norte-americano médio avalia sua vida em cerca de US$ 6 milhões, algo como R$ 19 milhões. Números sempre nos remetem a frieza, a não considerarmos outros aspectos que dão sentido ao que estamos analisando, como os afetos. O que nos levaria a pensar que uma vida humana teria um valor inestimável, além do alcance dos números. Mas seria isso verdade? 

Ao contrário, não damos à nossa existência um valor incalculável. Os muitos momentos em que nos colocamos em risco, ou mesmo o quanto negligenciamos, por exemplo, os cuidados com a saúde mostram que esse valor é relativo. Para ilustrar, quando vemos um grave acidente de trânsito nosso interesse pela notícia não nos leva a refletir sobre os cuidados que devemos ter ao dirigir. Se estamos habituados a exceder não só a velocidade permitida, mas até mesmo a velocidade razoável em uma estrada, ou se falamos ao celular enquanto dirigimos, vamos continuar a fazê-lo. Por que isso acontece? A explicação só pode ser dar um valor muito pequeno à própria vida – e, porque não, também à vida dos outros.

Acidentes acontecem, claro, não temos como evitar todos os infortúnios. Mas não há dúvida que nosso comportamento pode fazer a diferença entre uma ocorrência que nos causa um pequeno aborrecimento, um ferimento um pouco mais grave ou até mesmo a morte. Se nem tudo pode ser controlado, podemos pelo menos influenciar em alguma medida as consequências daquilo que nos acomete. E o parâmetro para isso é o valor que damos à vida.