Direto da redação 21/04/2018 00h34 Atualizado às 10h24

Ameaça à democracia?

Determinada classe de brasileiros não está acostumada a prestar contas de seus atos. A esses a imprensa incomoda, e é ótimo que se sintam assim

Há alguns anos, um jornalista foi “convocado” por um deputado federal a comparecer a seu escritório e dar “explicações” sobre o teor de reportagem que envolvia o parlamentar. Quando isso acontece, sabe-se que o objetivo inconfesso é o da intimidação. Não lembro qual era o teor do texto, só o que o jornalista disse quando retornou da “conversa”: “Fui lá e não abaixei a cabeça”.

Essa pequena história ganha algum significado quando vemos as agressões que jornalistas sofreram em vista da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente nos dias que antecederam sua chegada a Curitiba. Para lembrar, equipes de reportagem foram atacadas por pessoas que, supostamente, defendiam o ex-presidente. Veículos foram atingidos por pedras e os jornalistas ouviram xingamentos diversos. Como geralmente acontece nesses casos, determinados veículos de comunicação foram eleitos como responsáveis, ou pelo menos cúmplices, pela situação que se desenrolava com o líder político em questão.

Quando tais fatos acontecem, costumamos alertar que ataques a jornalistas representam ameaças à democracia. O que parece lógico, pois sem imprensa independente não há como existir sociedade livre – nos falta uma parte importante dos instrumentos de que dispomos para nos colocarmos acima das vontades momentâneas do grupo político da vez.

Mas pensando novamente no jornalista que não abaixou a cabeça para o deputado, me permito uma interpretação diferente das consequências desses episódios. Vejo agressões a jornalistas não como ameaça e sim como indicativo de que estão fazendo seu trabalho, qual seja, perturbar quem se acha poderoso demais para se submeter às leis. São uma afirmação, quase um atestado de que a atuação está sendo independente.

Há que se desconfiar de jornalistas populares, aceitos sem reservas por todos; não estariam eles se curvando às vontades de grupos aqui e ali, sem incomodar ninguém? Assim como muitos motoristas se ofendem quando parados por um guarda de trânsito e precisam mostrar os documentos, uma determinada classe de brasileiros não está acostumada a prestar contas de seus atos. A esses a imprensa incomoda, e é ótimo que se sintam assim. Muitas vezes sua única saída é agredir, ou insuflar alguém a fazer isso.

É claro que o Brasil já teve outros momentos turbulentos e complicados, e é claro também que nossa tendência é achar que o pior está acontecendo agora, coincidentemente quando estamos vivos para ver e sentir. Mas mesmo que não seja nosso ponto mais baixo, como país, podemos afirmar que poucas vezes foi tão importante ter uma imprensa independente. De sorte que agredir jornalistas não chega a ser uma ameaça à democracia; ameaça mesmo, só se eles se acovardarem e abaixarem a cabeça.