Direto da redação 02/06/2018 00h34 Atualizado às 10h21

Rotina criminosa

Não há bem maior que a liberdade, nem a vida, pois existir sem ser livre não vale a pena

Como bem sabem certas categorias profissionais, não há forma mais eficiente de pressão no Brasil do que causar tumulto na sociedade. Argumentar em defesa de suas razões, tentando que a outra parte ceda, pelo menos em parte, deixou de ser uma opção. Para conseguir o que se quer, há que colocar o maior número possível de pessoas e organizações de joelhos.

Os dias de greve em que nos mergulharam renderam muitas cenas impactantes, das quais as mais emblemáticas foram às relacionadas ao abastecimento dos veículos. Brigas em postos – pessoas se golpeando com galões vazios, veja só –, comemoração pela chegada de caminhões-tanque, cansaço e choro nas filas de carros... Mas o que mais me chamou a atenção foi o constrangimento de muitos profissionais, de várias áreas, na hora em que estavam fazendo o seu trabalho, como aconteceu com um motorista de caminhão-tanque. Ao descarregar combustível no posto, sob escolta policial, tinha no olhar quase um pedido de desculpas, acuado por estar trabalhando. Diante do aparente consenso social criado em torno da greve, fazer o pequeno dever que cabe a cada um de nós no dia a dia se tornou um crime.

Outras coisas também viraram crime, como transportar alguma mercadoria em um carro comum ou no porão de um ônibus (havia revista em barreiras); contestar os motivos da paralisação (a patrulha de sempre); fazer a cobertura dos acontecimentos (jornalistas foram hostilizados e até agredidos). Como diminuiu a opção de comida nos supermercados, começou a faltar sangue e medicamentos em hospitais e muita gente teve que cancelar compromissos, o mesmo se pode dizer da rotina – também se tornou atividade ilegal.

Quando se exerce uma profissão ou se está envolvido em alguma outra atividade econômica, sempre há opções para mudar a situação quando ela deixa de ser vantajosa. Não é preciso chantagear ninguém. Mas a sociedade não tem saída, precisa dos produtos e serviços. Quando se vê privada deles da forma que foi é porque passou a ser alvo de chantagem.

Por trás disso tudo, duas desconcertantes constatações. A primeira, a noção incorreta de que os fins justificam os meios – se minha causa é “justa”, não importa o que eu faça para defendê-la. A segunda, a decisão da sociedade de abrir mão de parte de sua liberdade para apoiar, de novo, causas “justas”. Nos dias de paralisação, caminhões não podiam circular, motoristas que queriam trabalhar eram intimidados, pessoas se viam impedidas de abastecer os carros nos postos. Só que não há bem maior que a liberdade, nem a vida, pois existir sem ser livre não vale a pena.

Reivindique o que quiser, apoie o que quiser, faça o que quiser, mas jamais abra mão da liberdade.