Direto da redação 25/08/2018 02h01 Atualizado às 10h27

Compartilhando desinformação

Não é algo que se combata dando conselhos, pois eles não serão atendidos e sequer entendidos por quem está mergulhado no mundo da desinformação

Vez por outra ouvimos falar de listas sobre como será o futuro. Em muitas áreas, especialistas dizem como esta ou aquela tecnologia deve se desenvolver e mesmo arriscam apontar o que de totalmente novo vai surgir. Não é novidade, porém, que muito do que experimentamos hoje como tecnologia do dia a dia nunca foi previsto. Enquanto a ficção, especialmente no cinema, nos apresentava um mundo futuro de sonho, ninguém antecipou o surgimento da internet, por exemplo.

Outra coisa que não se previu, mesmo depois de os computadores deixarem de ser simples máquinas de processamento para se tornarem meios de comunicação, é o fenômeno das fake news. A cada dia isso se torna um problema maior. Em um passado recente, ouvíamos que acontecia em lugares distantes, mas agora, mais e mais, a divulgação de desinformação se aproxima e toma de assalto a nossa rotina. Não cabe aqui falar em algum caso concreto, pois isso só contribui para potencializar o boato, mas penso que todos sabemos de um caso próximo e bem recente.

A jornalista Cátia Lassalvia, pesquisadora e consultora de empresas na área de comunicação estratégica, sugere que este fenômeno tem muito a ver com o que chama de “falta de letramento digital”. Quando dizemos que falta “letramento” a alguém, no sentido tradicional, é porque em resumo a pessoa é analfabeta. Pois agora também há um “analfabetismo digital”, no qual grande parte das pessoas está mergulhada.

Em termos simples, são aqueles que até nem têm dificuldade em manejar os dispositivos – computadores, tablets, smartphones – e igualmente sabem usar os aplicativos. O problema para eles está em decidir o que fazer com toda a informação que recebem, por exemplo, via redes sociais. Segundo Cátia Lassalvia, aí se manifesta a falta de letramento digital – não ter condições de avaliar o que está na tela pensando menos no conteúdo e mais na sua origem, na sua validade, no fato de que, graças a todos esses mecanismos, muita coisa inútil tem condições de se propagar facilmente. Trata-se de um fenômeno mundial, mas que tem se apresentado dramático no Brasil por conta de nossas deficiências educacionais. Nos Estados Unidos já existem escolas de ensino médio com disciplinas específicas de letramento digital, só que isso ainda está no campo da tentativa – não se imagina se dará certo ou não.

Analfabetismo digital não é algo que se combata dando conselhos, pois certamente eles não serão atendidos e sequer entendidos por quem está mergulhado no mundo da desinformação, repassando notícias falsas. Iniciativas precisam surgir especialmente na área da educação, para mostrar como cada um deve se relacionar com o que recebe pelos dispositivos, criando letramento igual a quando se ensina alguém a ler e escrever. É preciso começar do básico também no mundo digital.