Direto da redação 10/05/2019 22h19 Atualizado às 19h28

Banco de trás

As consequências de um acidente de trânsito são dolorosas. Descobrir isso na prática geralmente implica em grande sofrimento

Em um momento de muita informação, como este que vivemos, paradoxalmente nossa percepção sobre as coisas reais tende a ficar um pouco prejudicada. Isso acontece, em grande parte, porque estamos digitalizando as nossas ações e transferindo muito coisa para um mundo que não é palpável – embora não se possa dizer que não exista. Há muitos estudos a respeito, mas ainda sem conseguir dimensionar com precisão o quanto já nos impactou e como nos influenciará no futuro. Só se sabe que é muito.

Para exemplificar, veja o que diz um relatório publicado em abril pelo Instituto de Seguros para Segurança nas Rodovias nos Estados Unidos (IIHS, na sigla em inglês). Eles analisaram as consequências dos acidentes de trânsito para as pessoas que viajam no banco de trás dos automóveis. Embora os dados sejam de ocorrências nos Estados Unidos, não se pode descartar que isso se repita em todos os lugares, inclusive no Brasil.

O estudo mostra que viajar na parte de trás de um veículo é bem menos seguro do que andar na frente, nos lugares ocupados pelo motorista e o caroneiro. Com base em informações sobre acidentes automobilísticos entre 2004 e 2015, extraídos de dois bancos de dados do Departamento de Transportes dos EUA, concluíram que em 117 deles os passageiros sentados atrás morreram ou tiveram ferimentos graves. As lesões mais comuns foram no tórax. E o motivo disso não é tão difícil de entender: os ocupantes dos assentos dianteiros contam com bem mais dispositivos de proteção, como airbags dianteiros e laterais.

Essas constatações contrastam com a sensação de segurança que temos. Quando transportamos passageiros no banco de trás de um carro, geralmente significa que são filhos, parentes ou amigos, e eles estão vulneráveis. Será que nos damos conta disso? Penso que hoje grande parte de nossa complacência vem dessa dificuldade de percepção a partir das facilidades do mundo digital. Porque as consequências de um acidente de trânsito, por exemplo, são reais e dolorosas. Descobrir isso na prática geralmente implica em grande sofrimento.

Como estamos exatamente no mês dedicado à educação no trânsito e à prevenção de acidentes – o Maio Amarelo –, informações como essas devem nos levar a aumentar nossa conscientização. Não apenas a imprudência e a negligência podem ser fatais; há também fatores ambientais e até mesmo relacionados aos veículos que representam um perigo. Sabendo o quanto pode ser arriscado viajar na parte de trás dos automóveis, ganhamos mais motivos para redobrar os cuidados, até porque enfrentamos o desafio adicional de andar em rodovias inseguras, especialmente no Rio Grande do Sul. E as perspectivas disso mudar, quando existem, são apenas a longo prazo.