Fora de Pauta 04/01/2020 11h10

Árvores e futuro

Dentro dos limites do que podemos, levando em conta o acirramento das opiniões e a pouca tolerância ao debate, deveríamos nos atrever a pensar um pouco sobre isso

A época é propícia para a pergunta: há alguém que nunca tenha feito promessas de mudanças a cada fim de ano, as famosas “resoluções”? Aquelas que quase nunca são cumpridas, por serem metas de longo prazo, que precisam de dedicação constante para se tornarem realidade, pedaço a pedaço. Encerram a ideia de “criar o futuro” – que, infelizmente, costuma ser difuso e incerto.

Esse pensamento se encaixa nas recentes discussões sobre o corte de árvores nas proximidades do antigo Colégio Mauá, no Centro de Santa Cruz do Sul. A supressão de quatro jacarandás na Rua Borges de Medeiros, que ocorreu em um sábado de dezembro, é inclusive tema de reportagem especial na edição da Gazeta deste fim de semana, nas páginas 12 e 13.

Não sei muito a respeito dessas árvores, e de nenhuma outra, por não ser especialista no assunto. Mas de uma coisa tenho certeza: se elas estavam ali até recentemente, é porque alguém as plantou no passado. Em algum momento distante houve a preocupação de que existiriam pessoas para desfrutar da sombra que viriam a oferecer. Um vislumbre singelo de criação do futuro, por assim dizer. 

Não seria o caso de também pensarmos nas gerações vindouras e, por isso, considerarmos que árvores muito antigas já estariam no fim das suas vidas? Que, a serem mantidas como estão, não darão sombra a pessoas no futuro? Para garantir uma cidade arborizada nas próximas décadas, deveríamos plantar novas espécies hoje e, de preferência, adequadas ao ambiente urbano.

Esse caso e tantos outros chamam a atenção para o quanto nos preocupamos com o curto prazo e pouco fazemos por realizações que se alonguem no tempo. Sei que o comentado corte por parte da empresa de energia não mirou essa ideia de futuro e sim procurou atender à questão do conflito das árvores com a rede elétrica. Mas pode ser uma oportunidade de discutirmos o assunto. Não querer que as espécies do Centro sejam substituídas significa garantir o bem-estar hoje, para quem está vivo em 2020, mas descuidando dos santa-cruzenses que ainda virão. É o mesmo pensamento de quem não se preocupa em reduzir seu impacto no ambiente, ou não considera relevantes os alertas sobre os riscos que o planeta corre. Porque salvar a Terra do futuro, para quando não estivermos mais aqui, não parece importante face a vontade de viver o presente. O que, aliás, é um mantra atual – desfrutar o dia de hoje.

Dentro dos limites do que podemos, levando em conta o acirramento das opiniões e a pouca tolerância ao debate, deveríamos nos atrever a pensar um pouco sobre isso.