FORA DE PAUTA 09/08/2020 18h20

Proteger vidas

No caso da RSC-287, o projeto de duplicação prevê um dispositivo protegendo o tráfego nos dois sentidos? Ou serão quatro pistas separadas apenas por sinalização?

Se tudo der certo, pelo novo cronograma do governo do Estado, em setembro será lançado o edital para duplicação da RSC-287, conforme a Gazeta do Sul noticiou no dia 22 de julho. Essa fase, tão esperada pela região, vai começar o processo que resultará no leilão, em dezembro, para apontar a empresa encarregada de fazer o investimento e, em troca, se remunerar cobrando pedágio.

Há muitos aspectos – em termos de benefícios, especialmente – que cercam um processo como esse. Por exemplo, melhores condições para transportar a produção e mais oportunidades de desenvolvimento para as comunidades próximas à estrada. E também a questão, não menos relevante, da segurança dos motoristas em seus deslocamentos, já que hoje a 287 é uma rodovia de pista simples.

É esse aspecto que destaco por já ter me envolvido em acidente grave não exatamente na 287, mas no “prolongamento” dela, a BR-386. Por coincidência, uma rodovia duplicada. Uma das questões levantadas durante o debate sobre esse investimento, nos últimos anos, é justamente a segurança no trânsito. Em tese, trafegar em pista dupla representa menos riscos, pois se eliminam os acidentes que envolvem ultrapassagens indevidas, seguidas de colisão frontal, que costumam representar uma das principais causas de ocorrências com mortes nas estradas brasileiras. Mas será que isso é totalmente verdade?

Por não ser especialista, não tenho como argumentar nesse sentido com total segurança. Posso apenas falar da minha experiência, que envolveu a colisão com um caminhão que invadiu a pista na qual eu dirigia. Independentemente do que levou à perda do controle do veículo, o que é analisado hoje em processo judicial, e do fato de minha sobrevivência ter sido apenas uma questão de sorte, o que restou de certo é que o acidente teve consequências trágicas – duas mortes – muito porque a estrada não contava com nenhum aparato para separar as quatro pistas, duas em cada sentido. Guardrail, vegetação, valão, qualquer coisa teria servido para minimizar os danos, mas a BR-386 não tem nada disso naquele ponto. Ou seja, uma estrada duplicada, por si só, não representa aumento de segurança, no meu ponto de vista, se não tiver estruturas como essas que citei. Aliás, nesse particular, acredito que há até mais riscos, visto que as velocidades autorizadas em rodovias duplicadas tendem a ser maiores. Ou seja, a violência das colisões é ampliada.

No caso da RSC-287, o projeto de duplicação prevê um dispositivo protegendo o tráfego nos dois sentidos? Ou serão quatro pistas separadas apenas por sinalização? Fiz essa pergunta aos responsáveis pela elaboração do edital na fase de abertura para consulta pública. Havia a promessa de que as dúvidas e sugestões seriam analisadas e respondidas aos autores, o que, no meu caso, não aconteceu. De forma que não sei a resposta.

O perigo de opinar quando se viveu a situação é óbvio – o que dizemos pode ser tendencioso e desconsiderar todos os aspectos. Mas, do mesmo modo, pode nos dar a perspectiva que, para os demais, não foi considerada porque simplesmente não tinha como ser notada. Certamente a implantação de tal proteção, como se constata em outras rodovias, no Brasil e no exterior, representa acréscimo nos custos de duplicação. O confronto, como sempre, é com o valor das vidas que podem ser salvas. Para quem vê de fora, a quantidade de recursos necessária pode não justificar o investimento; quem viveu a situação-limite de um acidente se permite pensar diferente.

LEIA OUTRAS COLUNAS DE MAURÍCIO GOULART