Direto da redação 09/06/2018 00h19 Atualizado às 10h15

Procura-se um anjo

A vida ensinou a Fran que era necessário ter maturidade de adulto, quando a vontade era viver no universo das bonecas

Conheci a Fran em 2015. Ela tinha 9 anos e lutava há cinco contra uma leucemia linfoide aguda. Agarrada na mãe, Rosemere, intercalava seus dias entre visitar o Centro de Tratamento da Criança com Câncer (CTCriaC) – sempre em busca de um doador de medula – e manter uma rotina de brincadeiras como qualquer criança. Nem sempre, porém, a pequena conseguiu acompanhar as atividades dos colegas na escola. À época, ela já encarava a segunda leva de quimioterapia e, para manter a imunidade alta – e ter condições de receber a medicação –, foi muitas vezes obrigada a ficar em casa.

A vida ensinou a Fran que era necessário ter maturidade de adulto, quando a vontade era viver no universo das bonecas. Pediu que tivesse paciência, afinal a mãe precisava dela firme para não esmorecer. Insistiu que tivesse esperança, ainda que a leucemia tenha reincidido duas vezes. Os anos se passaram e a pequena segue em busca de um doador. Fran cresceu, deixou a timidez no passado e agora, toda falante, faz planos. Sonha. Não deixa que seus projetos de vida sejam combalidos pela doença. Depois que adotou o Pelé – um minipinscher –, decidiu ser veterinária. E já sabe até a universidade: é a UFSM, onde circula em dias de quimioterapia e diz ser muito bem tratada.

Fran anda faceira! E um tanto ocupada. Dedicou os últimos anos para aprender a tocar teclado e aprimorar suas habilidades no crochê. Agora só quer saber de elaborar tapetes, toalhas de mesa, entre outros acessórios em que pode empregar a técnica. Mostra-se, inclusive, disponível para fazer jogos de banheiro e cozinha por encomenda. “É porque assim eu posso ajudar a mãe.” Fran entende que a condição financeira das duas não é a mais confortável e para ajudar Rose, que sobrevive de uma pensão e algumas faxinas no mês, não mede esforços.

Na semana que passou, visitei a dupla novamente. Em 40 minutos de conversa naquele pequeno apartamento lá no Bairro Santo Antônio, elas reforçaram o que já haviam me ensinado em 2015: a união dessas duas, me desculpem o clichê, move montanhas.

“A mãe disse que eu vou fazer muita coisa. Eu acredito nisso.”E Rose, com os olhinhos já marejados, corresponde. “Eu nunca desisti dela.” No próximo sábado, dia 16, a nossa guerreira volta a ser protagonista de mais uma campanha de doação de medula óssea. A partir das 9 horas, a Aapecan vai coletar amostras de sangue e encaminhá-las ao Registro de Doadores de Medula (Redome). Existindo algum tecido compatível, Fran terá chances de fazer um transplante. “Há de aparecer um anjo”, conclui a mãe.

Já pensou se esse anjo não é você que acabou de ler este texto?