Direto da Redação 31/08/2018 22h49 Atualizado às 11h55

'Tudo vira prioridade, menos você'

O deadline eo prazo pegam. O aperfeiçoamento profissional também. Tudo vira prioridade, menos você

Era segunda-feira e eu estava de folga. Tinha trabalhado no fim de semana e, como sou acostumada a fazer, reservaria o meu dia free para… resolver coisas. Acordei lembrando do artigo final da pós que precisava formatar, da reunião com o meu orientador que precisava marcar, do freela que precisava entregar. Era folga, mas não para o meu cérebro. Ele continuaria a mil naquela segunda-feira, não fosse uma boa coincidência. Ao sair de casa, o destino colocou no meu caminho a nossa querida banca do Zé. Na vitrine, a chamada de capa da revista Vida Simples (quem ainda não leu, indico) me enviou um recadinho: Desacelere. Na hora até achei que havia sido o meu colega de redação, o Zé Ferreira, que tinha enviado subliminarmente a tal mensagem. Não faz muito tempo, o danado me apelidou de acelerada. Vê se eu posso?!

O fato é que eu olhei para a chamada. A chamada olhou para mim e não resisti. Entrei na banca, comprei a revista e decidi “ignorar” as tarefas que tinha agendado mentalmente para aquela manhã. Precisei lidar com a culpa e com o pensamento: “Mas eu podia estar produzindo!” (Logo imaginei minha terapeuta me dando um puxão de orelha). Fui em frente.

Ainda não sabia o que fazer. Tomar um café na Ilumi? Ir para casa e me atirar no sofá enquanto devorava a publicação? Nenhuma dessas opções me pareceu tão tentadora quanto aproveitar o sol que esteve escasso nos últimos meses. O dia lindo e o friozinho na medida me convidaram para curtir a vibração em um banquinho na Praça da Bandeira. Tive uma manhã feliz. E sabe por quê? Porque o tempo era só meu. Minha companhia, o sol e a revista que me envolvia em boas histórias me trouxeram uma serenidade que há tempos eu não sentia. Quando mesmo foi a última vez que eu tinha feito isso por mim?

Tem sido mais do que um desafio desacelerar e se livrar das cargas diárias. O deadline, o prazo e a entrega pegam. A necessidade constante de se aperfeiçoar profissionalmente também. Os convites sociais e o chopinho com os amigos (não que isso não seja bom) são outros compromissos que desviam o foco. O fato é que tudo vira prioridade, menos você.

Muitas pessoas ainda associam essa reduzida de ritmo a uma pegada mais simples ou até a uma mudança para o interior. A questão é que não é preciso “afastar-se” de tudo para mudar. Pequenos atos, como tirar um turno para você mesmo, já fazem diferença. A reportagem da Vida Simples foi além e mostrou casos de pessoas que seguem morando nos grandes centros, mas que, por uma questão de saúde mental, resolveram reduzir a carga no trabalho, mesmo que isso implique ganhar menos. E ainda que pareça clichê, esse menos virou um mais imensurável. Mais possibilidades na rotina, mais criatividade, mais sentido nessa jornada que encaramos por aqui. Nosso tempo é um dos bens mais preciosos. Cuidemos dele. Ou melhor: cuidemos de nós.