Direto da redação 24/11/2018 01h10 Atualizado às 11h22

Abrace seu professor

Precisamos recuperar o prestígio desses guerreiros que não desistem de entender a educação como transformação social

O ano era 1999 e eu começava a descobrir o incrível mundo das letras. Minha mãe – pedagoga – já tinha ensinado a formar as palavras em casa, mas foi a profe Lúcia que lapidou essa habilidade. Todos os dias de tarde, a Natany (de apelido Bolinha) ia faceira para a escola cursar a primeira série. Pela rua, a caminho do Barthô, traduzia o que estava escrito nas fachadas.

– Pro-mo-ção. Ô maaaano, é promoção mesmo que tá escrito?

– Isso, Tanynha!

Tudo ia muito bem até que um dia a profe Lúcia passou um exercício antes de sairmos para o recreio. O desafio era simples: completar a letra que faltava.

Ele...ante

Gir...fa

Telefo...e

Meia horinha e praticamente toda a turma já estava com o exercício completo, mas quem disse que eu tinha entendido? Tive vergonha de pedir ajuda e fiquei ali, lutando contra aquele enigma que me parecia indecifrável. Quando percebeu que eu estava em apuros, a “sora” veio me ajudar. Explicou uma vez, não adiantou. Sentou do meu lado e explicou de novo. Sem sucesso.

Àquela altura, algum tipo de bloqueio já havia se instaurado. Eu chorei – leia-se abri o berreiro – e pedi para a profe que me deixasse fazer o exercício como tema de casa. Mas a resposta foi negativa.

Naquele momento, profe Lúcia entendeu que eu enfrentava um dos meus primeiros desafios na escola e não deixou que eu fugisse dele. Fez de tudo para que eu encarasse o temido “complete a palavra” e o mais importante: não desistiu de mim. Desistiu foi do recreio e dos minutinhos de descanso para me explicar mais vezes o tema.

Me lembrei desse episódio após ler uma das tantas reportagens nos últimos dias sobre o desprestígio do professor no Brasil. Como? Como, uma das figuras mais importantes para o desenvolvimento de qualquer nação, na nossa, está em baixa? Como deixamos que no Índice Global de Status de Professores, o Brasil ficasse com a última colocação? Que nação é essa que chama de “doutrinação” um espaço plural que serve para debater ideias, promover o pensamento crítico e a construção da cidadania? A mesma que cria a Escola Sem Partido, projeto que, em minha visão, subestima a capacidade de o jovem pensar e até mesmo se posicionar frente a opiniões com que não concorde.

É por isso que dei a esta coluna o nome da campanha mais do que oportuna lançada pelo 18º Núcleo do Cpers: Abrace seu professor. Precisamos trabalhar para recuperar o prestígio desses guerreiros que passam por maus bocados, mas não desistem de entender a educação como um processo de transformação social. A todos os meus mestres, especialmente à profe Lúcia, muito obrigada. Sintam-se abraçados.