Aquele abraço 05/04/2019 00h56 Atualizado às 10h05

Loucas reviravoltas

Minha vontade era a de ter um gravador só para poder escutar de novo as expressões e aquele jeitinho de falar que conta tanto sobre o nosso Brasil

Saddan é um garçom conhecido da boemia carioca. Nordestino arretado do Ceará, ele não só conquista clientes. Forma seguidores. “Se ele sair daqui, a gente vai atrás dele”, diz meu namorado, apoiado pelos amigos. E não sou eu quem vai questionar essa tradição mantida há anos. Até porque o cara é bom mesmo. Basta a noite cair para o Pontes, bar onde ele trabalha em Botafogo, ficar lotado e contrariar o cenário de “butecão abandonado”, outra faceta do mesmo estabelecimento antes desse profissional de primeira chamar a galera.

Saddan tem a magia de manter o caos em ordem, trazer a cerveja estupidamente gelada e contar as melhores histórias sobre Camocim, sua cidade no Ceará (é a parte que eu mais gosto).  “Ô Saddan, tem aquela mesinha pra gente?”. “É pra já, irmandade. Se não tiver mesa eu cato um pedaço no mato e faço uma agóórinha pra você.” E num piscar de olhos ele dá um jeito de encontrar um lugarzinho aconchegante, mesmo com o bar explodindo de gente. “Ráápaiz aqui a gente não brinca em serviço.”

Saddan conhece um pouquinho da vida de cada cliente. E o contrário também acontece. Como ainda não estou a par de todos os detalhes, faço questão de perguntar e entender um pouco mais sobre a história desse cara de quem só conhecemos o apelido, mas que já faz parte do nosso ciclo de fim de semana. A bem da verdade é que a minha vontade era a de ter um gravador só para poder escutar de novo as expressões e aquele jeitinho de falar que conta tanto sobre o nosso Brasil: diverso, rico e cheio de gente corajosa que precisou abandonar uma vida para começar outra e ainda assim agradecer.

Eliana foi uma mulher que conheci em uma aula de maracatu. Enquanto esperávamos a sala de dança abrir, ela se sentou do meu lado e, toda acolhedora, compartilhou dicas de peças de teatro e lugares para eu conhecer aqui no Rio de Janeiro. Em dez minutos de papo entendi que teríamos muita coisa para compartilhar. Eliana se separou há um ano e falou sobre a montanha-russa vivida nos últimos meses: a solidão, a redescoberta de sua identidade e o processo de voltar a se amar. “É tão bom descobrir quem eu sou, do que eu gosto... Explorar as minhas vontades”, me disse. Esse novo momento, aliás, propiciou a ela uma mudança ainda mais intensa. Aos 40 anos, Eliana vai abandonar o Direito e a carreira construída até aqui para estudar Medicina. Até que passe no vestibular, já faz planos: vai dar aula de yoga, sua mais nova paixão. Louca? Sim... Ela já ouviu esse tipo de comentário, mas nada que abale sua confiança e a impeça de seguir. É que Eliana entendeu que reviravoltas exigem coragem e que, dentro de sua“loucura”, está apenas atrás de suas verdades. E daquilo que acredita.