Aquele abraço 19/04/2019 00h35 Atualizado às 16h17

Efeitos da saudade

Crescer é difícil, estar longe dos seus aperta e é preciso estar aberto para o novo, para outras formas de conviver

Quarta-feira, final do gauchão, 21h30. Liguei a TV meio que no automático procurando algum canal que transmitisse a partida. Não vi Grêmio, não vi Inter. Vi um pouco do jogo do Fluminense na esperança de aparecer algum lance do campeonato. Nada.

Enquanto buscava notícias sobre o Gre-Nal, imaginei meu pai no sofá com o controle na mão: estaria acordando ou cochilando entre um lance e outro? O Rauber e o Marcelo (amigos e gremistas fanáticos) gritando em frente à TV, o Pedrinho (filho do Rauber e da Aline) trajando alguma camisetinha do Grêmio e participando da zoeira. A cidade, enfim, mobilizada para ver qual time seria campeão gaúcho.

Aqui no Rio, uma noite comum. Sem gritos, sem galera combinando de se reunir em um ponto específico da cidade para fazer carreata, sem a vibração que só uma vitória pós Gre-Nal é capaz de causar. Se senti falta? É claro! Quem não quer ver o seu time sagrar-se campeão e abraçar os amigos depois de bater o rival?

Sentir falta dói, mas no meu caso concluí que é uma dor boa. (Será que existe isso mesmo ou eu acabei de inventar?) O que quero dizer é que sentir saudades é atestar que o nosso passado – seja ele longínquo ou recente – foi bom. Que valeu a pena conviver, que teve amor, que até as coisas mais simples, tipo ver o meu pai perder o gol porque cochilou no meio do jogo, dão saudades.

Essa saudade também me diz que quando eu voltar para visitar Santa Cruz, as coisas podem até estar diferentes, mas a essência não. O Pedrinho vai estar grande, o Rauber, o Marcelo e a turma vão me trazer novidades da vida e meu pai, bem, talvez ele continue dormindo no sofá, mas todos eles vão me recepcionar com aquele abraço de urso e me darão espaço para seguir fortificando uma conexão construída por anos de convivência.

Por aqui eu sigo testando. E me reinventando. Já falei aqui que comecei a fazer aula de maracatu, né? Pois essa semana fui de novo e descobri que dançar com o batuque do tambor é, por vezes, meditar em movimento, e outras tantas soltar todas as angústias e os medos naqueles passos lateralizados. É assentir que homens, mulheres, jovens, mais velhos, coordenados ou sem coordenação alguma podem (e devem) dançar. É também sentir-se livre para ser quem se é, mesmo que muitas vezes tenhamos que vestir algumas máscaras para conviver em sociedade.

Por aqui entendo que crescer é difícil, que estar longe dos seus aperta e que é preciso estar aberto para o novo, para outras formas de conviver, e principalmente, para você mesmo. Me mudei para o Rio, mas agora entendo que mais do que esses 1,7 mil quilômetros que me separam de Santa Cruz, a maior viagem que fiz foi a interna. E que as pessoas que se propõem a entrar nela estarão sempre em compasso de deslocamento. Ainda bem! Adoro viajar.