Aquele abraço 03/05/2019 00h07 Atualizado às 09h59

Tem dias que é difícil

Tem dias que é difícil encarar alguns posicionamentos e não sentir medo do que nos espera, do que está por vir

Tem dias que é difícil ouvir alguns comentários, tentar dialogar e não saber se o esforço surtiu efeito. Tem dias que é difícil encarar alguns posicionamentos e não sentir medo do que nos espera, do que está por vir. Exemplifico: terça à tarde, entrei em uma lojinha de bijuteria aqui no Rio e, enquanto escolhia um anel, o dono da loja começou a conversar. Comentário aqui, pontada de opinião ali e eis que na hora de pagar (depois de muito ouvir o que eu não tinha perguntado), o sujeito me larga a seguinte colocação: “Eu acho que as mulheres precisam se colocar no lugar delas. Elas têm que deixar de ser feministas e voltarem a ser femininas. Essa coisa de feminismo está atrasando o Brasil”.

Eu, que até então só queria comprar o meu anel, senti meu sangue subir, respirei fundo, tirei alguma força que achei ter se esvaído depois de ouvir aquele comentário e sugeri: “Mas o senhor não acha que dá para conciliar as duas coisas? Nós, mulheres, não precisamos deixar de ser femininas para incorporar o feminismo em nossa rotina. Uma coisa não está dissociada da outra”. Bem, aí ele me olhou com uma cara de quem não esperava a resposta, duvidou da minha colocação e eu, obviamente, agradeci, dei um tchau e até nunca mais.

O problema é que esse episódio aconteceu no mesmo dia em que um israelense me parou na rua para perguntar onde ficava o metrô. Prontamente indiquei a direção e, depois de agradecer, ele disse: “Aceita tomar um drink comigo hoje à noite?”. Obviamente eu disse que não, mas ele insistiu. “Nem o seu telefone?” Chocada com o atrevimento, cara de pau e falta de noção, comecei a refletir sobre o que leva um desconhecido a tomar uma atitude dessas. Bem, depois que o nosso presidente afirmou que quem quisesse vir ao Brasil fazer sexo com mulher, que ficasse à vontade, não vou me surpreender se ouvir mais relatos como esse.

Alô, presidente, não somos mercadoria, e se o senhor quiser justificar esse infeliz comentário defendendo que não podemos ser o país do “mundo gay”, fica pior ainda. No Brasil existem muitas famílias gays e elas não estão fazendo mal a ninguém. Pelo contrário, ralam pacas, trabalham e ajudam a desenvolver o país que o senhor hoje lidera.

Dito isso, gostaria de sugerir uma série que assisti no Netflix esses tempos, Crimes em Déli. Baseada em uma história real, a produção indiana retrata a história de um estupro coletivo que aconteceu na capital, Nova Déli, em dezembro de 2012. Muito bem produzida, a série escracha os contrastes da Índia: o país espiritualizado versus a sua cultura machista que segue fazendo vítimas. E mata. Ao menos as leis antiestupro ficaram mais rígidas após inúmeras mobilizações em nome de Nirbhaya –  “destemida”–, forma como as militantes indianas se referem à vítima. Fica a dica.