Aquele abraço 27/06/2019 23h26 Atualizado às 11h09

Adoro meu povo

O que segue me surpreendendo é a habilidade que brasileiro tem para driblar a crise e manter o sorrisão no rosto.

Que brasileiro é criativo e utiliza essa habilidade como nenhum outro cidadão do mundo, não há mais como questionar. O que segue me surpreendendo é a habilidade que brasileiro tem para driblar a crise e manter o sorrisão no rosto. Aqui no Rio, apesar de todos os problemas, admiro a originalidade que enxergo pelas ruas. Esses tempos, em uma praia vizinha, fui comprar uma água de coco. Pois não é que o atendente serviu umas quatro pessoas, cuidou do caixa e ainda comentou que trabalhava como taxista marítimo (tudo no mesmo turno?)

A caminho do trabalho, outro case de sucesso chama a minha atenção. Trata-se de um vendedor de cocada. Não sei quando ele começou, nem quando o negócio passou a fazer sucesso; só sei que aquela barraquinha é hoje um dos maiores fenômenos da Rua Santa Luzia. Todos os dias, lá pelas 11 horas, ele estaciona seu carrinho no mesmo ponto entre dois restaurantes e começa a vender centenas de unidades. Pelos meus cálculos, deve parar só depois das 15 horas. Precisam é ver o antes e o depois: a cara dos clientes ansiosos na fila e a face iluminada de quem já adquiriu a sua cocada. Queria eu poder ser uma mosca para acompanhar a rotina daquele comerciante. Que horas ele acorda? De onde vem com aquele carrinho lotado de coco e leite condensado? Quais são os planos após esse estouro? Visão de negócio ele certamente tem.

Há outra pessoa que vem ganhando meu coração por aqui: o seu Dê. De segunda a sexta-feira, ele pega um ônibus em Itaboraí, viaja uma hora e meia, desce no Centro do Rio de Janeiro e vem alegrar a minha e a vida de meus colegas de trabalho. De cabelo branquinho, estatura baixa e habilidade única para segurar uma bandeja com dez xícaras (ou mais), seu Dê faz o cheirinho de café se espalhar pelo setor. Basta a gente escutar aquele barulho de louça se aproximando para o alívio se instaurar. Vocês acreditam que ele lembra a quantidade de gotas de adoçante que cada colaborador gosta?!

Nas reuniões, esse simpático senhorzinho chega devagar, serve o café, fecha a porta e, de tanto que procura ser discreto (para não atrapalhar), faz seu profissionalismo ser ainda mais sentido. Seu Dê é o cara! Mas não para por aí. Além de servir café, ele trata de fazer um bico extra (e seguir trazendo a felicidade para os famintos de plantão). Vende misto-quente, bolo de fubá, além da combinação beijinho e brigadeiro, esses feitos pela sua filha. É claro que a gente não resiste.

Aonde eu quero chegar com tudo isso? Que é legal exercitar esse olhar sobre o entorno. Seu Dê, o taxista marítimo e o vendedor de cocada são brasileiros que ralam pra caramba, não perdem a simpatia e acreditam que as coisas vão melhorar. Adoro o meu povo.