Aquele abraço 01/08/2019 23h11 Atualizado às 12h40

Desafinando juntos

Nunca fui muito fã do tal karaokê (quem gosta dessa prática talvez me julgue agora)

Era sexta-feira pós trabalho, quando alguns colegas de emprego me chamaram para ir ao karaokê da Feira de São Cristóvão – espaço reservado à cultura nordestina aqui no Rio de Janeiro. Nunca fui muito fã do tal karaokê (quem gosta dessa prática talvez me julgue agora), mas decidi entrar no embalo da turma.

Chegamos na feira e minha colega Bruna, frequentadora assídua do espaço, avisou: “vamos na barraquinha Já Disse”. Ao chegar naquele espaço com o tamanho equivalente ao de uma garagem, entendi o porquê da escolha. A Feira de São Cristóvão deve ter mais de dez estabelecimentos do tipo, mas somente o Já Disse possui regras muito bem estipuladas. É que, para pegar o microfone e cantar uma das milhares de canções incluídas nos caderninhos, a dona do espaço, Maria Vilani, pede que todos os clientes leiam as orientações coladas na parede:
“Não falar palavrão;
Não sentar no colo;
Não consumir bebidas que não sejam as do estabelecimento”.
– Já leram as regras? Então podem entrar –, disse em tom de voz firme.

Interagi com dona Vilani apenas por algumas horas, mas entendi que por trás daquela baixinha com feição de poucos amigos, existe um ser humano de humor peculiar que se aposentou para dar sentido aos seus dias: administrar, ao lado do marido, um negócio que as pessoas procuram para se divertir, soltar a voz e deixar os problemas lá longe.

E é justamente nesse contexto que, aos 70 anos, essa senhora de bochechas rechonchudas mostra o melhor de sua perfomance.

Ela não só cuida das fichas e organiza a fila da cantoria, como chama as duplas ou grupos para cantar com slogans personalizados.

“Agora é a hora da Bruna e a rapaziada”; “A Barraca Já disse agradece a preferência e a paciência”; “Hoje o show vai até as 3 da madrugada!”.

Não bastasse tamanha desenvoltura,  dona Maria Vilani lembrou que aquela data – 28 de junho – era o Dia Internacional do Orgulho Gay. Talvez tenha sido esse o motivo do seu look criativo: sandália baixinha com meias rosas e pulseiras coloridas. Um arraso!

Mas é quando a noite vai se encaminhando para o fim e depois de algumas puxadas de orelha – “Repito, palavrão aqui não” – que Dona Vilani chama o companheiro, seu José Carlos, para cantar.

Nessa hora, os rumores de que ambos se conheceram em um karaokê há décadas no Centro do Rio fazem todo o sentido. A sintonia dos dois desbanca qualquer dupla que tentou cantarolar alguma coisa naquele mesmo espaço. Queria eu resgatar os versos da música para finalizar esta crônica. Só lembro que era romântica. E brega. Mas quem se importa? O que fica é que, no mesmo ritmo, eles desafinam juntos.