TRIBUNA 11/10/2020 13h51

Poucas propostas na largada da TV

Com a ajuda do professor de Comunicação Social da Unisc Leonel Aires, a coluna analisou os programas inaugurais dos prefeituráveis

Na estreia do horário eleitoral gratuito nessa sexta-feira, os candidatos a prefeito de Santa Cruz do Sul pouco falaram em propostas, quase não mencionaram os próprios partidos e dedicaram a maior parte dos seus tempos para se apresentarem ao eleitorado. Com a ajuda do professor de Comunicação Social da Unisc Leonel Aires, a coluna analisou os programas inaugurais dos prefeituráveis.

Dono do maior tempo entre os candidatos, Alex Knak (MDB) valorizou o lado pessoal no primeiro programa. Apareceu vestindo camiseta e jaqueta (destoando da imagem associada ao político profissional) e junto ao filho, à esposa e à mãe. Em um segundo momento, ele e o vice Fabiano Dupont, também acompanhado da esposa e filhos, aparecem em volta de uma mesa de almoço, brindando. Tudo indica que o programa buscou apresentar o candidato como um “homem comum” para aproximá-lo do eleitorado. No plano estético, destacaram-se os enquadramentos fechados, sobretudo nos depoimentos dos candidatos e familiares. “Isso transmite uma mensagem emocional. Valoriza a expressividade de quem fala”, observa Aires.

Com apenas 17 segundos, o menor tempo da campanha, Carlos Eurico Pereira (Novo) foi o único que buscou sublinhar o vínculo partidário, o que passou batido entre os demais: apareceu vestindo uma camiseta do Novo. “Havia claramente ali uma intenção de marcar que ele representa o partido na disputa”, analisa Aires. Em função do tempo exíguo, a aparição se limitou a uma frase dita por ele, sugestivamente em frente à Catedral São João Batista, o que gera uma identificação imediata na medida em que se trata de um marco simbólico do município. Ao final, o programa chama para as redes sociais da campanha.

Com um formato mais tradicional, com os candidatos se dirigindo diretamente ao telespectador, o programa de Helena Hermany (PP) explorou a câmera lenta e imagens de Santa Cruz em um tom emocional. O foco foi exaltar o currículo tanto de Helena – que também apareceu interagindo com eleitores nas ruas – quanto do vice Elstor Desbessell, incluindo sequências de fotos da trajetória de ambos, em uma tentativa de valorizar a experiência em contraponto ao discurso pró-renovação de boa parte dos adversários. “Foi um programa mais clássico, talvez para marcar que não são candidatos de primeira viagem”, disse Aires.

O programa de Frederico de Barros (PT) valorizou o perfil jovem dele e da vice Manu Mantovani, destoando do formato tradicional. Na abertura, imagens dos dois diante de computadores se alternavam, como se estivessem dividindo a redação das propostas. Na narração, foi citado um dos motes da campanha, que é a implantação do orçamento participativo. Em meio a isso, surgiram imagens de eleitores. Ao final, Frederico pega um telefone e “liga” para a vice: “Manu, a hora é agora.” “Foi um programa sem nenhum elemento clássico, com um olhar mais jovem e que trouxe a ideia de uma construção conjunta de plano de governo”, analisou Aires.

Com o segundo maior tempo, o programa de Jaqueline Marques (PSD) buscou associar à candidata e ao vice Ido Dupont um perfil técnico, deixando de fora questões familiares. Jaqueline aparece em casa e dá depoimento vestindo terno, buscando transmitir uma imagem de mulher forte e de vocação gestora. Ido afirma que decidiu concorrer para retribuir o que recebeu da comunidade ao longo da vida. As falas de ambos são reforçadas com o recurso do lettering – palavras e frases. O destaque, porém, foi a participação do prefeito Telmo Kirst, em uma tentativa clara de capitalizar a aprovação de sua gestão. “O prefeito não só faz um relato, como pede apoio com clareza, dizendo que quem apoia ele deve apoiar ela”, observou o professor.

Inteiramente centrado na figura do candidato, o programa de Mathias Bertram (PTB) exalta em especial o vínculo com a empresa Lisaruth, fundada por sua família e da qual é sócio, inclusive por meio de imagens dele junto a funcionários e na linha de produção. “Há uma estratégia clara de associá-lo à empresa, quase como um sobrenome, para destacar o perfil de administrador”, enfatiza Aires. Em tom menos emocional do que os adversários, Mathias aparece com o Parque da Gruta ao fundo e fala caminhando – aludindo ao mote “sempre em frente”. Também alternam-se imagens suas com a família, buscando fixar uma imagem de simplicidade. O vice César Cechinato é apenas citado.

*Não houve exibição de programa do candidato Irton Marx (Solidariedade) nessa sexta-feira.

LEIA MAIS COLUNAS DE PEDRO GARCIA