Insegurança 22/12/2020 07h07 Atualizado às 20h16

“Acabou com parte de mim”, desabafa vítima de tentativa de estupro

Crime que aconteceu no dia 11, em Rio Pardo, vem sendo investigado pela Polícia Civil. Autor já foi identificado, mas está solto

Eram 20h38 do último dia 11 de dezembro, uma sexta-feira, quando Marta Thailise Konzen Fusieger ligou para a mãe. Precisava buscar um Clonazepam para conseguir dormir, depois de dias com insônia. Funcionária de uma empresa do setor alimentício de Rio Pardo, ela está de atestado. Sofre de depressão profunda.

Após o telefonema, Marta vestiu uma roupa casual e saiu de casa, no Bairro Ramiz Galvão, Rio Pardo, para ir a pé até a residência dos pais, a 800 metros da sua. A mulher de 27 anos aproveitou para jantar a comida caseira da mãe e colocar o papo em dia com ela, o pai e um de seus irmãos. Após sair da casa dos parentes, no caminho de volta, ligou para uma amiga às 22h13, para matar o tempo enquanto fazia o trajeto de 15 minutos.

LEIA MAIS: Mulher sofre tentativa de estupro em Rio Pardo

A exatidão dos horários dos telefonemas deve-se aos registros preservados pelo celular de Marta – que caiu no chão e ficou com a linha ativa, no momento em que ela foi raptada por um abusador. Do outro lado da linha, a amiga da vítima ouviu seus primeiros gritos de socorro, fato que seria crucial para encontrar a jovem ainda com vida.

“Eu não vi que ele estava atrás de mim. Acredito que estava me seguindo”, relatou Marta em entrevista à Gazeta do Sul, na qual fez questão de divulgar seu nome e mostrar o rosto. “Olhei para trás, vi que era uma pessoa que eu não conhecia e dei um passo ao lado para deixar passar. Quando fiz isso, ele me pegou pelo pescoço em um mata-leão e me empurrou para a estação, me jogando contra a parede.”

Já sobre os trilhos da Estação Férrea de Ramiz Galvão, o agressor tentou despir a vítima, que se debatia e tentava impedi-lo. Segundo Marta, o rapaz aparentava estar sob efeito de drogas e bebida alcoólica. “Acabou me levando para o mato, onde ocorreu mais luta, comigo tentando conter as investidas dele. Ele me jogou em um buraco, onde machuquei minhas costelas. Me pegou pelos cabelos e mandou calar a boca, pra ninguém ouvir, pois os cachorros já estavam latindo”, contou a vítima, que ficou com várias lesões.

LEIA TAMBÉM: Lei obriga síndicos a denunciarem casos de violência doméstica

MOMENTOS DE TERROR

Na luta, Marta perdeu os calçados e o celular. “Falei: ‘Por favor, me solta. Eu te dou dinheiro, só não me mata’. Nunca passei por essa situação. Achava que iria morrer e implorava pela minha vida. Na minha cabeça, eu só via minha família e minhas duas filhas. Foram momentos de terror.” A suspeita de que havia um sequestro em andamento ocorreu quando a amiga ouviu os gritos de socorro no celular ativo, e tratou de avisar a mãe e o pai da vítima.

“Minha mãe e meu pai acionaram a Brigada. O bandido tentou se esconder e dizia para eu calar a boca. O sentimento era de agonia, desespero.” Depois de 40 minutos em poder do criminoso, um lance de sorte, segundo a vítima, salvou-a. “Chegando em uma rua, eu dei sorte, pois era próximo da casa da minha mãe, fato que ele não sabia. Quando ele me mandou para os trilhos, empurrei ele e saí gritando. A vizinhança ouviu, aí ele saiu correndo.”

LEIA TAMBÉM: Educação é a chave contra o abuso sexual de crianças

Na madrugada de sábado, dia 12, após a tentativa de estupro, Marta foi ao Hospital Regional tratar ferimentos | Foto: Arquivo Pessoal

“Já instauramos inquérito”, diz delegado

Informações que circulam entre os moradores indicam que o suspeito de cometer a tentativa de estupro teria sido visto no último final de semana em uma motocicleta Honda Bros vermelha, em bairros como Ramiz Galvão e Aldeia. Ainda na noite do crime, a Brigada Militar esteve no local para coletar evidências. O telefone celular e o par de calçados da vítima, que haviam sido perdidos durante o ataque, foram recuperados. Informações de testemunhas dão conta de que o autor do crime saiu correndo, passando pelo pátio de diversas residências do bairro.

Ele foi identificado pela Brigada Militar. Tem 24 anos e já foi preso em flagrante em janeiro de 2018 por assalto a um taxista, também em Ramiz Galvão. “Realizamos buscas até por volta das 3 horas, mas não o encontramos”, comentou o subcomandante do 2° Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Rio Pardo, capitão Renan Todendi Dutra.

Vizinhos viram parte do fato, mas, em virtude da escuridão, chegaram a pensar que os dois estariam namorando, porque a vítima estava sendo sufocada, sem poder gritar. “Somente quando ela conseguiu empurrar o homem, perceberam que ela estava sendo atacada. Daí foram atrás, mas ele fugiu por um mato próximo. Essas pessoas que estavam na rua ajudaram a polícia a fazer o reconhecimento do autor”, complementou o capitão da BM.

Ainda naquela noite, Marta Fusieger foi tratar dos ferimentos no Hospital Regional do Vale do Rio Pardo. Por volta das 2h30, acompanhada de PMs, ela ainda foi à Delegacia de Polícia de Rio Pardo registrar a ocorrência de tentativa de estupro. Na segunda-feira seguinte ao crime, a vítima da tentativa de estupro fez um exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) de Santa Cruz do Sul. O resultado sai em poucos dias.

“Estamos cientes dos fatos. Já instauramos um inquérito policial, e o criminoso já foi identificado. Estamos aguardando o resultado de exames e ouvindo testemunhas”, comentou o delegado responsável pela DP de Rio Pardo, Anderson Faturi.

LEIA TAMBÉM: “A sociedade é conivente com a violência contra a mulher”, diz professora de Direito

No local dos fatos

Na tarde do último sábado, a reportagem da Gazeta do Sul acompanhou Marta até os trilhos da antiga Estação Férrea de Ramiz Galvão. “Essa é a primeira vez que eu volto aqui desde aquele dia. Eu estou arrasada, ainda estou toda machucada da tortura, do espancamento. Nem consigo caminhar direito. As feridas irão curar, mas ele acabou com uma parte de mim naquela noite.”

Ela revela também que espera, ao relatar o que sofreu, dar voz a outras mulheres. “Como ele fez pra mim, pode fazer para qualquer outra pessoa. Nossa justiça é complicada. Enquanto ele está na rua, solto, eu não saio mais sozinha, acordo em pânico, não durmo mais. Mas vou me expor e lutar por mim e pelas outras mulheres que sofrem esse tipo de abuso e percebem que não acontece nada.”

LEIA TAMBÉM: Deputados propõem Lei Mari Ferrer para proteger vítimas de estupro

Vítima de 27 anos foi levada até antigo prédio e agredida | Foto: Lula Helfer