Coluna 31/10/2020 20h13

Dia de Halloween

Ágatha, a caçula, vai de freira fantasma, enquanto as duas irmãs mais velhas apostarão na linha zumbi

As gurias lá de casa andaram ocupadíssimas ao longo desta semana, às voltas com tecidos negros, brancos e vermelhos. Como é tradição nos dias que antecedem o Halloween, passaram horas produzindo suas fantasias e tramando quais guloseimas seriam servidas por ocasião da data, neste sábado. As três só não planejam sair pela rua extorquindo doces dos vizinhos com a tradicional ameaça – “doces ou travessuras” – por causa da pandemia e também porque acham vexatório bater de porta em porta fantasiadas. De forma que, a exemplo de anos anteriores, farão uma festinha em casa mesmo, reservada aos olhos dos mais íntimos.

A confecção das fantasias transcorreu sob absoluto sigilo e, no dia em que escrevo esta coluna, ainda não me foi dado o privilégio de saber oficialmente quais serão os trajes. Contudo, pelo que consegui perceber, Ágatha, a caçula, vai de freira fantasma, enquanto as duas irmãs mais velhas apostarão na linha zumbi. No ano passado, Ágatha muniu-se de imenso chapelão e vestiu-se de bruxa, Yasmin de boneca zumbi e Isadora de IT, a Coisa. A produção foi digna de cinema, com maquiagem carregada: olhos cercados por sombras, bocas costuradas, lábios tingidos de vermelho ou negro, cicatrizes, baratas e teias de aranha desenhadas na pele.

Aliás, naquele ano o mesmo figurino foi utilizado pelas gurias dias antes do 31 de outubro, na Procissão das Criaturas – ocasião em que passei por situação bastante constrangedora, cujos meandros, só agora, aproveito para esclarecer à comunidade santa-cruzense, a fim de dirimir eventual mal-entendido que persista em relação a minha sanidade mental. Ocorre que, naquele sábado, havíamos combinado que não participaríamos da procissão. Apenas assistiríamos, da calçada da Floriano, à passagem da multidão fantasiada. Afinal, eu e a Patrícia somos de outros tempos, mais reacionários, de antesdo desembarque do Halloween e do estilo geek no Brasil.

Por isso, fomos, eu e a Patrícia, vestidos à paisana, munidos apenas com térmica e cuia para o mate. Já as gurias foram fantasiadas. Óbvio que, quando começou o desfile, teve início também a insistência para ingressarmos na turba.

– Vamos, pai, vamos…
– Deixa, mãe, deixaaaaaa…
– Que chato ficar só olhaaaandooo…

Acabamos, enfim, nos rendendo e entramos na marcha, seguindo as três. E logo senti na pele, enquanto caminhava pela Floriano e sorvia o mate (cabisbaixo, sobre a cuia), o quanto é constrangedor ser “normal” em meio a monstros, fantasmas, bruxas, heróis, zumbis, vikings e cavaleiros medievais. Estando em trajes de passeio, senti-me como um tolo que não tivesse entendido o rico espírito do desfile.

Para piorar, gaiatos começaram a gritar, da calçada:

– Ei, Düren, que fantasia sem graça é essa?
– Aí, Ricardo, que máscara horripilante estás usando…

E o gran finale, ao término do desfile, foi quando recebi um Whats do colega Zé Augusto Borowsky, um notório zombeteiro. Simulando tom jornalístico, o texto dizia que “a criatura mais sinistra da procissão fora o Mateador Assassino” – no caso, eu – o qual, passando-se por uma pessoa comum, “distribuíra cuias de chimarrão com chumbinho aos desavisados”.

Que vergonha!
Mas as gurias se divertiram um bocado e, no fim das contas, é isso que importa.

- X -

Conforme escrevi antes, o Halloween é uma festa relativamente jovem no Brasil, não brincava-se de Dia das Bruxas na minha infância, pelo menos não lá nos altos do Bairro Pedreira. Trata-se de uma tradição norte-americana de origens difíceis de se precisar. Supõe-se que teria chegado à América de carona com os imigrantes irlandeses, herdeiros da cultura celta.

Os antigos celtas tinham por tradição a festa pagã do Samhain, quando comemoravam, ao fim de outubro, o sucesso das colheitas e preparavam-se para o início do inverno – a estação mais sombria do ano. Acreditavam que, nas noites de Samhain, abriam-se as fronteiras do mundo sobrenatural, permitindo o aparecimento de fadas, espíritos maléficos, duendes travessos e cavaleiros sem cabeça.

Para manter essa turma assustadora longe, os celtas deixavam oferendas nas matas ou vestiam-se, eles próprios, de monstros, na tentativa de ludibriar os visitantes do além. Mas, como também apreciavam uma boa farra, faziam seus ritos em meio a muita comida e a generosas doses de cerveja e hidromel. De bobos, os celtas não tinham nada.

- X -

A primeira manifestação de Halloween que presenciei ao vivo foi há uns cinco ou seis anos, quando crianças vestidas de monstro passaram a circular pela rua onde morávamos, à caça de doces. Lembro que uma vizinha mais corajosa decidiu pagar pra ver: ao invés de depositar doces nas cestas, escolheu a opção 2 – travessuras. Foi então alvo de uma saraivada de ovos de galinha, que os travessos mantinham escondidos nas cestas.

Achei aquilo um absurdo, não só pelo atentado a uma idosa, mas pelo desperdício dos ovos. Por isso, aqui em casa ovos, farinha e confeitos têm outro destino no Halloween: transformam-se em guloseimas deliciosas, ainda que decoradas de maneira repugnante para quem possui estômago mais sensível. Ano passado, o destaque da mesa preparada pelas gurias, com ajuda da Patrícia, foi um bolo coberto por uma grossa calda verde – “feita de vômito de monstro”, segundo disse-me a caçula – e povoado por baratas e aranhas de plástico, além de vermes de massa comestível. Uma delícia.

Para este sábado, não sei ainda o que me espera. Mas, a julgar pelo esforço das gurias, vem aí um Halloween de arrepiar as barbas de qualquer druida celta que, por acaso, decida aparecer.

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