Ricardo Düren 14/02/2021 16h28 Atualizado às 20h05

O amigo do homem da sepultura com capacete

Meu medo é que tentem reproduzir, lá em casa, as marotices dos moleques da antiga Sinimbu

Dias atrás recebi um telefonema do escritor Mauro Klafke, uma das principais referências da nossa literatura regional. Para minha modesta alegria, o professor Mauro ligou para contar que havia lido e – que alívio! – gostado do meu último livro, O homem da sepultura com capacete - uma história inspirada em fatos reais (Editora Gazeta, 2020). Revelou ter ficado bastante impressionado, particularmente, com o rabugento Madakal, um dos personagens que povoam a narrativa. Observou que o Madakal é uma daquelas figuras que, no que têm de pitorescas, mantêm-se vivas na memória dos mais antigos.

O Madakal, cumpre citar, é um personagem de verdade, que realmente viveu em Sinimbu na década de 1930. Alemão, havia lutado na Primeira Guerra Mundial e imigrara para o Brasil ao final do conflito. Seu nome era Karl Mader, mas costumada ser chamado pelo nome invertido, Mader Karl – ou Madakal, conforme o povo falava à época. Faleceu em 22 de setembro de 1940, aos 63 anos, e está sepultado no Cemitério Católico de Sinimbu. Em sua lápide foi esculpida uma caravela, em referência às suas aventuras mundo afora. Uma foto dessa sepultura pode ser conferida no meu livro.

O período em que Karl Mader viveu em Sinimbu é contemporâneo ao do austríaco Carl Schreiner, protagonista do romance e também um personagem real. Ex-soldado, Schreiner sobrevivera aos horrores das trincheiras da Primeira Guerra para acabar morrendo em Sinimbu, em 1936, vítima de um amor proibido – assassinado pelo noivo de uma moça pela qual estava apaixonado. Sim, a mirabolante história de Schreiner é real e ele está sepultado, também, no Cemitério Católico de Sinimbu, sob uma lápide onde há a escultura de um capacete. Schreiner é, portanto, o homem da sepultura com capacete.

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Diferente de Schreiner, um tipo caladão e avesso a encrencas, Mader era um sujeito rabugento e de cabeça quente, segundo descreveram-me antigos moradores de Sinimbu. Barbudão e desleixado com a aparência, vivia em um galpão que também servia-lhe de oficina. Alçado ao status de figura folclórica de Sinimbu, era o alvo predileto das traquinagens dos meninos da vila, que ao toparem com ele pelas ruas corriam aos gritos.

– Lá vem o Madakal, lá vem o Madakal!

Conta-se que os moleques mais ousados invadiam o pátio da oficina e construíam represas em um pequeno córrego que passava ali perto, descendo das montanhas rumo ao Rio Pardinho. Mader só constatava a travessura ao perceber o pátio e o galpão alagados. Então, apanhava um relho e punha os marotos a correr, e a algazarra estava completa.

– Lá vem o Madakal, lá vem o Madakal!

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Lá em casa a história de Mader também causou sensação. A Yasmin, que gosta de bancar a adulta – preparando receitas e discutindo sobre alguns mistérios do universo –, não intimidou-se com o livro e logo tratou de aventurar-se na leitura. Mas achou uma coisa estranha. 

Madakal… – comentou. – Que nome esquisito ele tinha…

E fez uma descrição do pitoresco personagem à irmã mais nova, Ágatha. Esta, contudo, não demonstrou estranheza com o que ouviu.

 – Acho que conheço ele – comentou. – Passou um tipo assim dias atrás aqui pela rua... Acho que era ele.

Mas as duas ficaram bem impressionadas com as traquinagens impostas ao Madakal – o que tem me deixado preocupado. Meu medo é que tentem reproduzir, lá em casa, as marotices dos moleques da antiga Sinimbu.

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Para quem se interessou pela história de Carl Schreiner e do amigo Madakal, mas ainda não garantiu seu exemplar, preciso deixar um alerta: as edições estão se esgotando rápido e convém se apressar. Aqui na Gazeta o livro pode ser adquirido na Casa de Clientes com desconto para assinantes – de R$ 30,00 por R$ 25,00. A obra também está à disposição na Iluminura e na Banca. Em Sinimbu, pode ser adquirida na Farmácia Sinimbu ou com o amigo Valdir Kappel, representante da Gazeta do Sul. Em Vera Cruz, está à venda na Sucursal Gazeta. Boa leitura!

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